sábado, 12 de março de 2011

Cajarana


“Quem entra nesse carro não tem grana,
por isso o nome dele é Cajarana”

Lembro-me com uma dose moderada e cautelosa de saudade de uns tempos, não tão antigos, em que a situação aqui de casa conseguia ser pior (Deus, perdoe nossa ingratidão!). Tempos estes em que eu tinha na faixa de 11 pra 12, auge do início do fim da infância e começo da idiotescência (nesse trecho eu travei uma feroz batalha com meu editor de texto (tá, Word, ok? Microsoft Word) para que este aceitasse meu neologismo).

Quando a gente tem certa idade, parece que Deus nos presenteia com o dom do retardo mental afim de que façamos besteiras aos montes para que possamos (pelo menos os espertos) aprender lições que nos ajudarão no desenvolver de nossa maturidade e nos orientarão por toda vida. Confesso que nem todos aprendem de primeira. Aprendem na segunda, na terceira. Fodam-se os que nunca aprendem! Dizem que errar é humano; já o perdoar é Divino (errar duas vezes é coisa do MEC). Aprender com os erros dos outros é o que chamo de sabedoria.

Mas, indo direto ao ponto que não interessa a ninguém, os fatos eram que eu tinha essa faixa etária já mencionada, era gordinho (gordinho = gordo pequeno. hoje que cresci um pouco sou gordo) e tinha um belo de um cabeção que faria inveja a Milton Neves. Pra falar a verdade gordinho foi eufemismo de minha parte, eu era uma bolinha de gordura hidrogenada, um forte concorrente a astro de cinema caso continuassem a saga da orca Willy e esta ganhasse um filhote ou irmão mais novo.

Geralmente é nessa faixa etária em que os pelinhos começam a nascer, surge também o que vou nomear por “enxerimento”, em homenagem as pessoas de mais idade. Usei o termo “geralmente” por que eu, de tão enxerido, comecei minha vida amorosa muito cedo, por volta dos 10 anos de idade (nesse trecho dei boas risadas). Eufemismo novamente! Hoje estou um Lord. Em substituição a “vida amorosa”, leia-se “decepções amorosas”. Maus-bons-tempos.

Bom, comecei esse texto no intuito de contar o quanto morria de vergonha no tempo em que meu pai tinha um fusca amarelo, mas, memórias começaram a brotar e não quis interromper... Meus amigos da época chegaram até a fazer a musiquinha cujos versos estão após o título. Confesso que achava legal quando ele tentava me ensinar a dirigir, mas no íntimo, nunca queria que os colegas da escola me vissem saindo do fusca. Seria um atestado de pobreza.

Mas que vergonha pode ter um pobre de apresentar um atestado de pobreza? Pode um recém nascido impedir que façam-lhe uma certidão de nascimento? Ou um defunto opor-se que lhe preparem um atestado de óbito? De certo eu preferia ver meu atestado de óbito do que chegar na escola em um fusca, que já não achando que chamava muita atenção por seu discretíssimo amarelo, ainda fazia uma barulheira dos infernos. Engraçado que em outros lugares tudo bem, mas na escola eu não queria de maneira alguma (talvez pelo fato de ser o local onde eu conhecia mais meninas).

Meu pai sempre se oferecendo para ir me deixar, com a melhor das intenções (ou não) e eu sempre gentilmente recusando, preferindo caminhar uns 3 km para ir à escola:
“Não painho, pode deixar que eu vou andando com os meninos ”
Meninos uma ova, saia disparado com medo de que ele insistisse e meu pior pesadelo se torna-se verdade.

Consegui fugir algumas vezes até que ele, percebendo meus motivos, um dia bateu o pé e disse que ia me deixar. Nesse dia não teve conversa que resolvesse, aí apelei pro choro e pra minha mãe. Ele queria pelo menos que eu confessasse que tinha vergonha do fusca:
“Não, pai, não é isso”, entre lágrimas e soluços.
Ele me disse:
“Pode falar, você tem vergonha de chegar de fusca e que eles riam de você, pensem que somos pobres.”
Já não agüentando respondi:
“É, pai, é isso. Por favor, não me leve.”
Ele calmamente respondeu:
“Mas meu filho, somos pobres. Então não há problema algum em que pensem que somos pobres. Problemas teríamos se pensassem que somos ricos.”

[...]

Mesmo chorando ele me colocou no Carajana e me levou até a escola. Saltei do carro tão rápido que até hoje não sei se riram de mim ou não, se é que alguém me viu sair daquele carro. Não importava mais, eu já havia aprendido a lição. Daquele dia em diante, muitas vezes cheguei a escola graças àquele bendito fusca amarelo.


Sei que muito provavelmente você já ouviu que as pessoas tem seu valor pelo que são e jamais pelo que tem, ou já leu qualquer meia dúzia de palavras que abordavam o assunto. Bom, acho que essas palavras merecem sempre serem lembradas, fiz minha parte.

Naquela manhã nublada de um dia qualquer, de um mês que eu não me recordo, de um ano que já não importa, meu pai me ensinou uma grande lição de vida.

Que eu podia sentir vergonha por algo que tinha feito, mas jamais pelo que era.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Amanhecer


Tenho tanto medo de estar só
Que apago as luzes para não ver ninguém
Mas sei que a florescente luz do sol
Revelará o que tento esconder

No amanhecer... no amanhecer.
No amanhecer... sim, no amanhecer.


É hora de enfrentar
O que te fez fugir, te fez chorar
É hora de lutar!
Ou fazer as pazes, perdoar...

No amanhecer... no amanhecer.
No amanhecer... sim, no amanhecer.


Tenho tanto medo de estar só
Que até confio em quem não devo confiar
Mas sei que um dia tudo passará
E não terei mais que me esconder

No amanhecer... no amanhecer.
No amanhecer... sim, no amanhecer.


É hora de enfrentar
O que te fez fugir, te fez chorar
È hora de lutar!
Ou fazer as pazes, perdoar...

Mas não é sempre que logo amanhece,
Certas noites parecem não ter fim
Você pode até chorando perguntar:
“onde foi que se escondeu o sol?”

No amanhecer... no amanhecer.
No amanhecer... sim, no amanhecer.


Tenho tanto medo,
Que tenho medo de ter medo.
Eu tenho tanto medo,
Que tenho medo de ter medo.


No amanhecer... no amanhecer.
No amanhecer... sim, no amanhecer.