sábado, 29 de janeiro de 2011

Uma outra história de Prometeu (I)


Mas o que é o futuro? Será que futuro pertence àquela classe de palavras que o homem criou para designar coisas que não existem? Como diria meu professor de filosofia: “O presente existe, passado e futuro não, pois o futuro nunca chega e o passado não tem valor por que passou, não passa de presente gasto”. É uma forma de interpretar...

O passado é o presente que já se gastou, de certa forma é mais real que o futuro, este de fato não existe por que nunca chega, ou quando “chega” deixar de ser o que seria, pois agora é, perdendo a natureza de futuro, pois esta é sua natureza: nem ser nem ter sido. Mas o presente é tão frágil... Eu realmente lamento por isso, por que o que estava ou era presente agora não é mais... Você nunca lembra com perfeição de todos os detalhes daquela música, o gosto do chocolate que se perde na boca, ah, eu realmente lamento. E aquele presente que eu antes mencionei já virou passado.
Mas o futuro? Já é predefinido e imutável? A quem pertence? Somos donos do nosso?


Supersticiosa, como sempre, Ana continuava com suas manias, rituais e crenças, sempre interessada em saber do futuro, ou, com auxílio das forças que a guiavam, decidir que caminho tomar. Sendo como era, Ana não podia deixar de ter em casa aquela boa ferradura, uma grande Bíblia aberta nos Salmos, uma dúzia e meia de santos e tudo quanto mais se possa esperar de alguém como ela. Quando moça, em tempos de casar, fez questão de pedir ao pai que lhe arrumasse um marido que tivesse nome de santo, como ela.

Seu pai te trouxe um João. Homem forte, traços rurais, pele queimada do sol, supôs ela ser um peão, então Ana entrega nas mãos da cigana seu destino.
- Cigana, da sabedoria que tens e da que lhe é dada, revele se este é meu destino.
A cigana respondeu:
- Caem as cartas e diante dos meus olhos o futuro se levanta! Este homem chamado João não te fará feliz, de forma rude ele te tratará e pouco será o amor de vocês e como o gado, que nasce cresce e na flor da vida é abatido. Será como o sol, que faz despertar com um calor agradável, mas ao passar o tempo, ao meio dia, torna-se insuportável, secando toda água, matando toda erva, queimando e destruindo.

E Ana resolveu pelo que as “cartas” resolveram e pediu ao pai que lhe arrumasse outro pretendente. O Pai, amoroso que era, decidiu fazer os agrados da filha, mesmo sabendo que o rapaz era um bom partido, filho mais moço de um rico fazendeiro, João tinha coração humilde, tomava conta dos rebanhos do pai, pelo apego que tinha aos bichos, por isso seu aspecto grosseiro, mas, de certo, teria feito Ana muito feliz.


Então o Pai de Ana lhe trouxe José, filho do coletor de impostos da vila. Poderia este seguir o ofício do pai e garantir a Ana uma vida confortável, sem contar o fato de que era o jovem mais belo das redondezas. Ana empolgada vai até cigana novamente já imaginando o sim que receberia da boca desta, já que o pretendente era dos melhores, moço sem defeitos, desejado por todas as mulheres, solteiras ou não.

- Cigana, da sabedoria que tens e da que lhe é dada, revele se este é meu destino.
A cigana respondeu:
- Caem as cartas e diante dos meus olhos o futuro se levanta! Este homem chamado José não te fará feliz, com severidade te cobrará nos teus afazeres, será impiedoso nas tuas faltas. Tirará-lhe os melhores anos da vida. Abandonará-te na velhice quando houver desfrutado de toda tua beleza e juventude.

Ana fica triste, mas aceita o destino que as cartas lhe deram e, assim como fizera com João, rejeita José mesmo sem este ter te feito nenhum mal. Algum tempo depois seu Pai trouxe mais um pretendente, tempo este suficiente para que a cigana conseguisse casar suas duas filhas com João é José, fato que de maneira alguma pode se atribuir ao destino, mas sim a esperteza da cigana. Este terceiro pretendente de Ana era ainda mais forte que João e mais belo que José, mas estes não eram seus pontos fortes, era ainda um homem muito bondoso, generoso e prestativo. Era um jovem comerciante recém chegado na vila, seu nome era Antônio.

Desta vez, Ana decide nem procurar a cigana por medo de perder o pretendente que, de maneira diferente dos demais, logo conquistou algo mais que sua simpatia, roubou-lhe o coração. Ana se casa e em pouco tempo os negócios de Antônio prosperam e este se torna o homem mais rico da região. Para coroar a alegria dos dois, Ana descobre estar grávida.

Mesmo tendo “roubado” os dois primeiro pretendentes, a cigana sente inveja pela alegria e prosperidade de Ana. Teria Ana pregado uma peça nela? Ou seria obra do destino? Para acabar com a alegria de Ana a cigana decide procurá-la para lhe dar uma visão que teve.
- Jovem Ana, sua alegria será passageira pois o filho que carrega no ventre não vingará. Esta criança que ainda nem se fez carne já tem data para voltar ao pó, pois me foi revelado que ele morrerá no mesmo dia em que nascer! Outra pessoa talvez não desce importância, mas Ana cria por demais em coisas não tão claras.

Dores de cabeça, preocupações, Ana não para de lembrar das palavras da cigana. Dores de cabeça, quase loucura, dor do parto. Ana quase inconsciente vê seu filho nascer.
- Ana, é um lindo homenzinho, que nome carregará pela vida? Uma homenagem ao Pai? Quem sabe ao avô... Que nome lhe dará, Ana?
Ana sem se deixar invadir pela alegria lembra das palavras más da cigana e responde:
- Não darei nome algum, esta criança morrerá ainda hoje, assim me prometeu a cigana.
As pessoas espantadas rebatem:
- Que bobagem, Ana, a criança é bela e sadia. De certo não deixará que cresça sem nome. Qual será?
Ana insistiu:
- Não darei nome algum, esta criança morrerá ainda hoje, assim me prometeu a cigana.

Para não contrariar a mãe nem deixar o pobre inocente sem nome, foi então chamado de Prometeu, sem sobrenomes, por se tratar da criança que a cigana prometeu que morreria no dia em que nasceu.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Campo grande



“a viagem de ida demora muito, você está cheio de expectativas a respeito do que vai encontrar e a saudade de casa é quase nula”

No terceiro final de semana de 2011 fui passar uns dias na cada de Erico, amigo que conheci no CEFET que hoje é IF (talvez nunca vá me acostumar). Por sorte, ele mora em Campo Grande, cidadezinha pequena (não que Mossoró não seja) com muitos traços rurais.

“Lá era gostoso fazer nada.”

Erico e eu pensamos de forma muito parecida (e maluca), sempre que eu ria de algo ele sabia por que eu estava rindo, mesmo que a explicação tivesse a ver com o livro “Fundamentos da física” ou com uma música dos Beatles. Se fosse só pelas conversas longas e sem muito nexo já teria sido ótimo, mas ainda aconteceram outras coisas.

Primeiro um circo cuja entrada me custou R$ 2,00. Aí eu te pergunto: tem como um espetáculo de R$ 2,00 prestar? Pô, eu sei que o preço das coisas nem sempre reflete seu valor (muitas vezes confundimos por que geralmente valor e preço apresentam relação de proporção), existem coisas baratas que são melhores que coisas caras não só por serem mais baratas lol. Mas, seguindo a lógica, o circo foi muito fraquinho, mas eu estava ali para ver qualquer coisa. Os palhaços conseguiam ser do nível de Renato Aragão em grau de previsibilidade e empolgação (empolgação tende a zero quando a previsibilidade tende ao infinito) sendo que no circo não havia extintor de incêndio. Para ser justo, tenho que confessar que ri horrores em um momento:

O palhaço propôs um desafio a alguns meninos, ele dizia as partes do corpo e os meninos tinham que tocar rapidamente:
- Nariz.
- Olho.
- Barriga...

Até aí tudo bem... Alguns meninos foram eliminados, restando apenas dois que vieram a formar uma espécie de final mundial que unificaria o título de criança tocadora de partes do corpo (¬¬’). Só que desta vez, ao invés de tocar nas próprias partes do corpo, eles teriam que tocar na parte mencionada no outro garoto:
- Cabeça.
- Nariz.
- Boca.
- Barriga...

Até que o palhaço solta uma palavrinha que eu estou tentando falar de uma forma polida, meiga, mas não sei se eu vou conseguir. Bom, vou usar o termo “órgão reprodutor masculino”, tá? Acho que soa melhor que os nomes mais comuns e não sei se seria muito legal para um universitário falar pipiu... Enfim... Foi quando o palhaço tava enrolando e falou:
- Nariz.
- Barriga.
- Órgão reprodutor masculino!

Os coitados dos meninos ficaram se olhando por uns 3 segundos. Eu sei que foi doloroso, deve ter demorado muito pra esse tempo passar, aposto que eles viram suas vidas passando diante dos seus olhos (se considerar que os pirralhos deviam ter de 8 pra 10 anos, nesses três segundos deu pra ver o “filme da vida” umas três vezes com direito a dar uma paradinha naquele dia em que viram mulheres de calcinha numa revista). Cara, eu juro que eu vi em câmera lenta, um moleque começou a mover o braço... Moveu... Moveu...

Quando esse menino pega lá nas partes do outro quase o circo vai abaixo, foi muito mais emocionante que um gol de copa do mundo (ainda mais se você considerar que ultimamente o Brasil... Dunga e Felipe Melo, nunca vou perdoá-los). Foi aquela explosão, pense, todo mundo gritou, vibrou. O palhaço até tentou comentar alguma coisa, mas, a cena não precisava de título, nota de rodapé nem legenda. O menino foi ovacionado.

Engraçado que o contato durou cerca de alguns micro ou milissegundos, só o tempo do pobre do menino ter percebido o que tinha feito. Talvez aquele fato marque sua vida para sempre. Imagine ser conhecido na cidade como “pega-pinto”.

Voltando ao mundo real, a comida era ótima, a mãe dele cozinha muito bem (abraço, Dona Marineide lol) e além disso, contava positivamente o fato de eu sentir que tudo era fresco.
Sei lá, senti que a qualidade de vida é maior quanto mais se distancia do mundo urbano. Podíamos ir a qualquer lugar a qualquer hora. Sinto falta de sair à noite sem ter que ficar olhando para trás, com medo. Ele me falou:

“vez por outra tem umas mortes por aqui, mas é sempre por que o cara já tinha matado um da outra família...”

Pô, se considerar que hoje as pessoas estão matando sem motivo, só pelo prazer de fazer o mal, estes assassinatos quase se tornam uma coisa positiva... Puxa, onde vamos parar...

Mais dias tocando violão, conversando pela madrugada, chegou a hora de voltar pra casa, tudo acaba e eu odeio despedidas...

“a viagem de volta demora quase nada, você já sabe o que vai encontrar, a mente se distrai com o que acabou de conhecer e isso vence a saudade que certamente logo vai passar”

sábado, 22 de janeiro de 2011

Chuuuuuuuuuuuuuuuva


Essas garotas do tempo são sempre tão bonitas e tão inteligentes.
Elas sabem como dar as notícias da maneira correta. Se for chover muito ela sabe como deixar feliz até quem planejava pegar uma praia. Se você estiver morrendo de calor, ela te deixará contente mesmo depois de informar que na sua cidade a máxima será de 37° e a mínima de 35°.
Ah, mulheres do tempo. Como elas conseguem? São verdadeiras feiticeiras contemporâneas...

Imagine-se casado com uma mulher do tempo:

“Hoje teremos arroz, feijão e bife no almoço, amor”
“Já para o jantar, provavelmente teremos sopa de carne na casa da mamãe”

Puxa, eu pude a ouvir falando isso com aquela voz macia. Puxa, “sério mesmo”, a imaginei indicando os alimentos naquele painel.


Sei lá, nunca tive uma boa relação com chuva, sempre sentia uma tristeza ao primeiro sinal de que iria chover. Já ouvi que essa tristeza era comum em adultos, provavelmente nascida de traumas infantis, sendo o caso mais comum a privação de brincar na rua que a chuva proporcionava. Acho que não é bem meu caso. Chuva aqui em Mossoró sempre foi sinônimo de banho de chuva, procurávamos as maiores quedas de água... Como a casa da minha avó é perto do centro (alguns consideram centro), nos aproveitávamos das biqueiras dos grandes armazéns pra tomar banho, alguns chegavam até a doer nas costas e na cabeça.

É, no caso tradicional eu não me enquadro. Mas eu conheço meu caso, ou pelo menos penso que conheço. Das poucas lembranças do tempo que morava em Salvador era da pequena casa em que morava que inteligentemente, pra não usar palavreado baixo (não que não use ou me incomode usar, é que respeito muito minhas memórias, não vou misturá-las com coisas ruins), possuía uma abertura na parede para ventilação que, de fato, molhava a casa quando chovia...

1x0 (Um a Zero) para a chuva.

Lembro também (claro, quem bate esquece, mas quem apanha...) que a pouco tempo, mais exatamente de 2006 até 2009, dava aula de reforço... euahuehuahuheu Lembro com uma certa saudade. “Bons tempos...” E ao mesmo tempo penso: “Tempos horríveis”. Momentos bons e momentos ruins, como quase tudo nessa vida, não é? OK, o que tem de relação entre as aulas e a chuva? Bom, eu só tinha uma bicicleta e não gostava de me atrasar... Se chovesse, azar o meu... Tomava aquele belo banho à força, com aquela tradicional enlameada nas costas que o pneu traseiro insistia em jogar.

2x0 (Dois a Zero) para a chuva.

As vezes eu me conformava que ia me molhar, já ia logo passando pelas possas, sabe?
“Está no inferno? Abraça o capeta!”

Sei lá... Hoje tenho carteira de habilitação. Ir de um lugar para outro se tornou mais fácil, mais prático, mais rápido, mais monótono, menos divertido. Sinto falta da minha bicicleta, passamos por muita coisa juntos, algumas boas, algumas ruins... (já falei isso).

(Depois prometo escrever sobre minhas bicicletas uahuehauheuahuehuaehu.)

Eu não sei por que sinto isso quando chove, mas eu sinto, assim como sinto vontade de chorar se ouvir aquela canção:

“Como pode o peixe vivo
Viver fora da água fria...
Como poderei viver
Sem a tua companhia”

Por favor, espero que ainda me levem a sério depois disso e espero que saibam respeitar meus sentimentos e não fiquem cantando quando me encontrarem por aí. Tenho meus medos, como todo mundo, uns fazem sentido, outros não.

Sei lá, meu sentimento deveria ter passado já que não tomo mais banho de chuva se não quiser. Eu reluto, mas a vida está me ensinando de todas as formas que nem tudo requer explicação e que não há explicação para tudo. Eu sou muito racional, mas o racional se torna inútil se ignorarmos nossa intuição (ou não), assim como as pessoas muito passionais geralmente são as que mais sofrem.

Seria muito legal se eu encerrasse esse texto pedindo licença para ir tomar um banho de chuva, realmente um “Gran Finale”, mas não está chovendo. Eu prometo que tomo na próxima, quem sabe com uma mulher do tempo.