
Essa semana, vi algo que a muito não via, peguei em algo que a muito não pegava: um pinto. Bom, ao que tudo indica pinto não é o nome mais correto para designar a “infância” das galinhas (ou galos, engraçado que galinha é uma das poucas espécies cujo nome da fêmea caracteriza os dois sexos, quando se diz que se come galinha, pode-se muito bem estar se referindo a um galo, por exemplo) parece que o mais correto mesmo seria pintainho, mas, aqui usarei o termo “pinto” para designar as galinhas filhotes.
Lembro que antes dessa era digital, antes que houvesse locadoras nas quais era possível passar a tarde inteira jogando super Nintendo e ainda lanchar com incríveis 75 centavos (ta, peguei pesado), as crianças tinham que procurar formas alternativas de brincar e uma dessas formas, pelo menos que eu recorria, eram jogos com galinhas. É cara, você leu correto, brincar com galinhas. Pois é, enquanto uns viajam até a Florida para ver um show de golfinhos no Seeworld, eu brincava com galinhas no quintal da minha avó.
Minhas história com as galinhas começa por volta dos cinco anos de idade, não lembro bem e seria até estranho lembrar com exatidão. Minha mãe comprou dois pintos, um pra mim e outro para uma prima minha que cresceu junto comigo. Eu era bem cuidadoso, dava água gelada, ração, tratava os dois com muito amor, talvez pra compensar a falta de zelo que minha prima tinha. Eu os carregava pra todo lugar dentro de uma caixa de sapato toda furadinha para que não ficasse muito quente e circulasse ar. Os dois pintos eram idênticos, mas mesmo assim eu achava que o meu era um galo e minha prima achava que o dela era uma galinha.
Os dias passaram até que e um dos pintos acabou morrendo ao cair dentro de uma bacia com água. TRÁGICO! Bom, como eu cuidava bem do meu, entendi claramente que era o da minha prima que veio a óbito (além disso, tinha sido minha mãe que tinha comprado, não seria justo que o meu morresse). Lá fui eu dar a notícia a minha prima. Ela não chorou muito. Realizamos o enterro do pinto lá no quintal de vovó mesmo e depois fomos brincar (como se isso já não tivesse sido uma brincadeira).
Aí meu pinto foi crescendo, crescendo... E se tornou um galo. Acho que se ele se tornasse uma galinha eu teria morrido de desgosto. Nem quero imaginar o impacto que isso causaria na formação do meu caráter. Perguntar-me-ia incansavelmente onde haveria falhado na educação daquele pequeno pinto. Mas ele se tornou um grande galo e dos valentes, tanto é que fiz umas viagens e quando voltei, ele não me reconhecia, queria me bicar, queria destruir o universo. Tive que parar de cuidar dele, ele era violento demais. Tempos depois ele morreu misteriosamente (acho que tem alguma relação com o fato dele atacar meus primos menores diariamente), ninguém falou em enterro... Eu acho que fui enganado e alguma “galinha” que comi por aqueles dias era na verdade meu galo querido. Só lamento por nunca ter lhe dado um nome... Não sei qual seria... Mas seria legal.
Mas, saindo desse flashback, existem muitas formas de se divertir com galinhas. Eu passava a tarde inteira alimentado as galinhas com um saco de milho. Quando falo a tarde toda era realmente a tarde toda porque eu dava de grão em grão. Não porque de grão em grão a galinha enche o papo e sim porque era mais divertido, emocionante, “de grão em grão Davi enche o saco (das galinhas)”. Cada grão que eu jogava era uma correria, uma espécie de “jogar pro frevo” com aves. Puxa, meus olhos brilham ao lembrar, era muito divertido. Cada milho era estrategicamente jogado numa extremidade do galinheiro. A cada vez que eu jogava, as galinhas ficavam bem tensas, esperando o próximo. Era muito humilhante e degradante para elas... Acho que não compensava para elas em termos metabólicos, creio que elas gastavam mais energia correndo do que ganhavam comendo milho. Seria mais vantajoso para elas se apenas ficassem olhando com um ar de reprovação enquanto eu jogava o milho. Quando eu desistisse de brincar e derramasse o pacote todo, aí elas comeriam em paz.
Existia também outra brincadeira, naquela linha de fazer de conta que está se fazendo algo sério. Eu treinava as galinhas para elas aperfeiçoarem o vôo. Forçava-as a praticar exercícios. Acreditava que através de exercícios físicos as galinhas poderiam voar. Essa série especial de treinamento consistia basicamente em jogar as galinhas pra cima o mais alto que eu pudesse e ver no que dava (não acredito que confessei isso). Era legal. Pense bem, não era bom de bola, ainda não tocava violão, ainda não existia Playstation... Jogar galinhas pra cima me parece boa opção nesse contexto... Mas antes que alguém me taxe de malvado, elas não se machucavam, na maioria das vezes davam uma voadinha, nenhuma nunca se feriu, ninguém precisa pensar que eu odeio os animais ou coisa do tipo (não sou muito fã de gatos).
Mas isso é passado, as galinhas são apenas uma raça escravizada e explorada impiedosamente por nós humanos, os laços de amizade que asseguravam a harmonia já não existem mais, pois as crianças não brincam mais com as galinhas, sei que não era o único, mas não sei se não fui o último. Hoje quando vou ao shopping e vejo menininhas de 12 anos de salto alto, maquiadas, sendo cortejadas por menininhos da mesma faixa etária eu me pergunto: Quem perde ou perdeu tempo? Eu perdi tempo sendo criança, andando de bicicleta, indo jogar pedra nos macacos do antigo zoológico da ESAM (hoje UFERSA), tomando banho de chuva, brincando de corrida de tampinha, futebol de botão, jogando bila, brincando de mirim... Ou será que são essas crianças de hoje que estão perdendo a infância tentando ser adultos? Tentando parecer com seus ídolos idiotas. Penso que criança deve ser criança, enquanto pode, e adulto deve ser adulto, enquanto deve. Tudo tem seu tempo, seu lugar. Acho que muitas coisas não são como deveriam, pois tentaram melhorar quando já eram inocentemente perfeitas...