Quase toda sexta-feira tenho ensaio na igreja à noite (toco baixo), como tocamos no Sábado pela manhã e moro um pouco distante da igreja, aproveito e durmo na casa de Stefferson, a quem não posso me referir como “um amigo meu” e sim como “Meu amigo”. Geralmente jogamos um pouco de vídeo-game, olhamos besteiras engraçadas na internet (antigamente jogávamos bola, mas desde o dia em que quebrei meu nariz com meu próprio joelho, num momento mágico do futebol, desisti e de certa forma fiquei até com medo).
Na casa de Steffeson mora Xantypa, uma bela cachorrinha vira-lata, pêlo escuro e sempre brincalhona (só pra esclarecer, prefiro cachorrinha a cadelinha, acho mais carinhoso). Ela mora em sua casinha que fica no quintal da casa. A missão de Xantypa na terra, ou seja, no quintal da casa de Stefferson, era proteger as galinhas que alí são criadas, sendo ela, portanto, uma espécie de cão pastor, mas precisamente um cão pastor de galinhas.
Mas logo que o tempo foi passando, percebeu-se que, talvez, Xantypa não tivesse vocação para a missão que recebera. Em primeiro lugar, não cresceu muito, sendo assim tornava-se incapaz de espantar um ladrão de galinha, por mais descorajoso que este pudesse ser. Em segundo lugar, por vezes ouvia-se muito barulho no quintal, quando Aloísio, o pai de Stefferson, dirigia-se ao quintal só achava as galinhas assustadas e Xantypa com um pinto na boca, judiando do pobre ser. Realmente ela não tinha vocação para ser um cão pastor de galinhas, nem todos os cães nascem com esse impressionante e maravilhoso dom.
Mas quando descobriram que Xantypa fazia mais mal do que bem aos galináceos já era tarde demais, todos na casa já tinham se apegado a ela e, como sabemos, quase sempre o coração fala mais alto. Portando, Xantypa não tinha mais razão para existir, a não ser o fato de ser o bibelô da casa... Imagino as noites que ela deve ter passado sem dormir tendo crises existenciais: “de onde eu vim?”, “por que estou aqui?”, “Au, Au!”. Pobrezinha. Nem cavar, nem latir, nada a animava, nem as galinhas. Morder o pescoço de um pinto já não lhe alegrava. Ela queria se sentir útil, fazer jus a ração e aos doces que recebia e tanto apreciava. Mas um dia a sorte dela mudou.
A casa de Stefferson fica bem perto do rio e por isso, vez por outra aparecem uns animais “selvagens” pela redondeza. Preás, tejus, e até soins. Inclusive um desses soins se acostumou a ir pegar comida lá em Stefferson. Pedaços de banana, pão, até cream cracker. Seu nome era Chico. Era até o dia em que em que Chico apareceu com um filhotezinho, dia em que perceberam que se tratava de Chica. Mas nem todos esses visitantes são bem vindos. Vez por outra aparecem ratos-do-mato. Bom, existe porco-do-mato, cachorro-do-mato, gato-do-mato, porque não rato-do-mato? Ou você acha que todos os ratos, assim como Jerry, moram em mini apartamentos bem mobiliados dentro das paredes?
Certo dia perceberam que havia um rato na cozinha, tentaram matá-lo e este acabou fugindo para o quintal. Quem salvou o dia? Isso mesmo, Xantypa. Em um ato heróico, saltou executando um bote certeiro e deu cabo da feroz ratazana. Todos ficaram felizes e orgulhosos, principalmente Xantypa, que voltou a ter alegria em seus dias pois descobrira qual era seu dom, caçar ratos.
Tempos depois outro rato apareceu e o pensamento foi unânime, tragam Xantypa. Ela entrou com um porte imponente, coluna ereta. Andou pra lá e pra cá, tentando encontrar alguma pista que a fizesse desvendar o paradeiro do rato.
“Vejam, parece que ela farejou algo.”
Xantypa saiu seguindo aquele rastro com muita convicção, todos estavam certos que em pouco tempo ela encontraria o rato e o exterminaria. De repente ela para e fica erguida sobre duas pernas apontando com o fucinho para cima de um balcão onde terminava a trilha que seguira. Nada de rato! Xantypa tinha farejado até a vasilha onde guardavam os biscoitos, bolachas e outros doces... Que bela caçadora.
Seria Xantypa um fracasso? Ela só teria matado o outro rato por que este teria encontrado alguma coisa doce no lixo e havia ficado com o cheiro das guloseimas, o que acabou atraindo xantypa? Não sei. Talvez nunca saiba. Mas não custa imaginar...

