sábado, 30 de abril de 2011

Xantypa


Quase toda sexta-feira tenho ensaio na igreja à noite (toco baixo), como tocamos no Sábado pela manhã e moro um pouco distante da igreja, aproveito e durmo na casa de Stefferson, a quem não posso me referir como “um amigo meu” e sim como “Meu amigo”. Geralmente jogamos um pouco de vídeo-game, olhamos besteiras engraçadas na internet (antigamente jogávamos bola, mas desde o dia em que quebrei meu nariz com meu próprio joelho, num momento mágico do futebol, desisti e de certa forma fiquei até com medo).

Na casa de Steffeson mora Xantypa, uma bela cachorrinha vira-lata, pêlo escuro e sempre brincalhona (só pra esclarecer, prefiro cachorrinha a cadelinha, acho mais carinhoso). Ela mora em sua casinha que fica no quintal da casa. A missão de Xantypa na terra, ou seja, no quintal da casa de Stefferson, era proteger as galinhas que alí são criadas, sendo ela, portanto, uma espécie de cão pastor, mas precisamente um cão pastor de galinhas.

Mas logo que o tempo foi passando, percebeu-se que, talvez, Xantypa não tivesse vocação para a missão que recebera. Em primeiro lugar, não cresceu muito, sendo assim tornava-se incapaz de espantar um ladrão de galinha, por mais descorajoso que este pudesse ser. Em segundo lugar, por vezes ouvia-se muito barulho no quintal, quando Aloísio, o pai de Stefferson, dirigia-se ao quintal só achava as galinhas assustadas e Xantypa com um pinto na boca, judiando do pobre ser. Realmente ela não tinha vocação para ser um cão pastor de galinhas, nem todos os cães nascem com esse impressionante e maravilhoso dom.

Mas quando descobriram que Xantypa fazia mais mal do que bem aos galináceos já era tarde demais, todos na casa já tinham se apegado a ela e, como sabemos, quase sempre o coração fala mais alto. Portando, Xantypa não tinha mais razão para existir, a não ser o fato de ser o bibelô da casa... Imagino as noites que ela deve ter passado sem dormir tendo crises existenciais: “de onde eu vim?”, “por que estou aqui?”, “Au, Au!”. Pobrezinha. Nem cavar, nem latir, nada a animava, nem as galinhas. Morder o pescoço de um pinto já não lhe alegrava. Ela queria se sentir útil, fazer jus a ração e aos doces que recebia e tanto apreciava. Mas um dia a sorte dela mudou.

A casa de Stefferson fica bem perto do rio e por isso, vez por outra aparecem uns animais “selvagens” pela redondeza. Preás, tejus, e até soins. Inclusive um desses soins se acostumou a ir pegar comida lá em Stefferson. Pedaços de banana, pão, até cream cracker. Seu nome era Chico. Era até o dia em que em que Chico apareceu com um filhotezinho, dia em que perceberam que se tratava de Chica. Mas nem todos esses visitantes são bem vindos. Vez por outra aparecem ratos-do-mato. Bom, existe porco-do-mato, cachorro-do-mato, gato-do-mato, porque não rato-do-mato? Ou você acha que todos os ratos, assim como Jerry, moram em mini apartamentos bem mobiliados dentro das paredes?

Certo dia perceberam que havia um rato na cozinha, tentaram matá-lo e este acabou fugindo para o quintal. Quem salvou o dia? Isso mesmo, Xantypa. Em um ato heróico, saltou executando um bote certeiro e deu cabo da feroz ratazana. Todos ficaram felizes e orgulhosos, principalmente Xantypa, que voltou a ter alegria em seus dias pois descobrira qual era seu dom, caçar ratos.

Tempos depois outro rato apareceu e o pensamento foi unânime, tragam Xantypa. Ela entrou com um porte imponente, coluna ereta. Andou pra lá e pra cá, tentando encontrar alguma pista que a fizesse desvendar o paradeiro do rato.
“Vejam, parece que ela farejou algo.”
Xantypa saiu seguindo aquele rastro com muita convicção, todos estavam certos que em pouco tempo ela encontraria o rato e o exterminaria. De repente ela para e fica erguida sobre duas pernas apontando com o fucinho para cima de um balcão onde terminava a trilha que seguira. Nada de rato! Xantypa tinha farejado até a vasilha onde guardavam os biscoitos, bolachas e outros doces... Que bela caçadora.

Seria Xantypa um fracasso? Ela só teria matado o outro rato por que este teria encontrado alguma coisa doce no lixo e havia ficado com o cheiro das guloseimas, o que acabou atraindo xantypa? Não sei. Talvez nunca saiba. Mas não custa imaginar...

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Vetor normal ao plano das idéias.


(Saudade)
Sinto fome, sinto medo,
Sinto que o tempo não passa.
Sinto sede, sinto sono,
Mas não sinto a sua falta.

(Alegria)
Vejo graça, sinto risos,
Sinto aquela nostalgia,
Sinto os tempos de criança,
Sinto a mais inocente alegria.

(Sensibilidade)
Sinto o cheiro, sinto a brisa,
Sinto o gosto, sintonia,
Sinto que não vem de longe
Esta doce melodia.

(Amizade)
Sinto fé, sinto confiança,
Sinto tua sinceridade,
Sinto você sempre por perto,
Sinto o que é amizade.

(Culpa)
Sinto tédio, que tristeza,
Sinto dor e solidão.
Sinto culpa, sinto remorso,
Sangue inocente em minha mão.

(Rejeição)
Sinto caras, sinto olhares,
Sinto que não sou bem-vindo,
Sinto-me preso, sinto entalo,
Sinto o coração partido.

(Déjà vu)
Sinto inveja, sinto agonia,
Sinto o vento e sinto frio,
Sinto que já passei por isso,
E na pele sinto arrepio.

(Adeus)
Sinto que é tarde, sinto muito,
Sinto que chegou a hora,
Peço perdão por meus erros,
Au revoir! Arrumo as malas e vou embora...

Ela odeia Ele


Não sei o porquê, não sei por onde, não sei como. Mas sei que Ela não gostava dEle. Não que fosse missão impossível, passível de filmagem em Hollywood (ou até mesmo em Bollywood); Ele como todo mundo, ou até mais, tinha seus defeitos aos montes e por cima uma pitadinha de qualidades, mas, nem por isso mereceria seu desprezo eterno.

Como tudo começou? Não sei. Ele, coitado, não faz idéia. Jura que é coisa só dá cabeça dEla, mas, não descarta a possibilidade de ter feito algo causador disso. Desde pequeno acostumou-se a levar a culpa por tudo que aparecia de errado em casa, ser culpado já era algo mais que intrínseco a sua pessoa:

No começo, perguntavam-lhe:
“Foi você que fez isso?”

Ele respondia:
“não, não fui eu!”

Anos de experiência, sabia que quando colocavam isso na cabeça inevitavelmente a responsabilidade seria dele e dizer que não havia feito só dava comprimento a conversa e mais chateação...

Depois, perguntavam-lhe:
“Foi você que fez?”

Ele respondia:
“sim, fui eu! Bati o carro, não coloquei o lixo pra fora, bebi toda a água gelada e não enchi as garrafas. Também sou responsável por não termos crescido os sonhados 5% no PIB, pela diabetes da vovó, pela péssima campanha que o Vasco tem feito esses anos, pelas férias do papai que nunca chegam, pelo alto número de mortes no trânsito e pelo aumento inexplicável e abusivo no preço da gasolina. Por minha culpa: houve essa guerra no Iraque e no Afeganistão, o petróleo do mundo está acabando, os Sarney continuam mandando no Maranhão, e o Lula ta sem um dedo em uma das mãos. Além disso eu to impedindo que descubram a cura pro câncer e a casa só está suja porque não quis tirar os chinelos quando entrei.”

Desse modo irônico, ao invés de levar a culpa, se passava por vítima, se livrava das acusações injustas (e das justas também) e encurtava a conversa.

“É, no fundo Ela me odeio por causa daquele dia que eu fiz aquela coisa que Ela não gostou... Seja lá esse dia qual for e seja aquela coisa qual for.”

Mas voltando ao ódio que Ela sentia por Ele, não consigo imaginar uma situação que fizesse tudo isso ter um sentido, prefiro aceitar o insosso Big Bang. Ela era caseira enquanto ele odiava sair. Ela era dedicada aos estudos, queria passar no vestibular enquanto Ele já fazia faculdade. Ela era bastante educada e Ele pelo menos procurava ser. Ambos gostavam de “cortar” os outros e, pelo que dizem, eram um pouco mais espertos que a média. Talvez eles até fossem muito parecidos e, talvez, aí estivesse o problema. Aquilo que Ela achava insuportável nEle, mesmo o espelho não sendo capaz de mostrar, muito provavelmente Ela também tivesse.

Se Ele tivesse mais tempo, bolaria mais teorias.

“Será que ela é nazista e acha que sou judeu?”

“Será que ela é Judia e me viu comer carne de porco?”

“Será que Ela é “porco” e pensa que eu sou “timão”?”

“Será coisa da minha cabeça, só imaginação?”

Mas nem tudo faz sentido no mundo e Ele, sabendo disso, respeitava o que Ela sentia, mesmo sem entender, mesmo sem saber ao certo se é que Ela sentia algo. É claro que isso atiçava sua curiosidade. Será que foi algo que Ele fez? Algo que Ele disse? Algo que Ele vestiu? O problema é se tudo fosse por algo que Ele era. Aí as coisas sairiam do campo de um possível mal entendido e entrariam no campo do pessoal, do irremediável. Ah, talvez se Ele fosse menos chato e Ela mais tolerante. Mas não importa muito como as coisas poderiam ser especialmente em momentos em que elas já são...

Um dia tomando coragem emprestada com alguém, dirigiu-se a Ela e disparou:

“Por que você não gosta de mim?”

“Não sei, só sei que não gosto.” Respondeu Ela.

Que todo mundo precisa gostar de alguém é algo que faz parte do senso comum, mas ainda não faz parte desse senso que todo mundo precisa odiar alguém. Vai ver é só isso. Acontece... Aconteceu com Ele... Pode acontecer comigo ou com você... Ah, pode acontecer com Ela também, viu? Nunca se sabe...