
Certo dia enquanto estava no horário da monitoria, via-me obrigado a permanecer naquela sala vazia até que o horário acabasse. E punha os olhos para fora daquela sala buscando qualquer ser que me livrasse daquele tédio. Freqüentemente é assim, as provas passam e ninguém mais que aprender nada, ninguém tem dúvidas, ninguém quer fazer uma questão. Mesmo assim, os monitores devem permanecer nas salas até que o horário acabe.
Voltando à solidão daquela sala, já estava farto. Já havia contado e recontado as cadeiras inclusive separando-as quanto serem normais ou para canhotos. Já havia buscado um padrão que explicasse as cadeiras fora das filas como se quisesse ver uma lógica naquela desordem. Já havia tentado juntar as últimas palavras que haviam naquele grande quadro branco, tentando decifrar pelo menos do que tratavam. Foi quando ela chegou.
Já nos conhecíamos de vista, ela já estivera na minha monitoria em outra oportunidade. Desejou-me um bom dia, entrou, sentou-se e pediu que a ajudasse com algumas questões. E eu que reclamava do tédio e da solidão agora tinha companhia e uma ocupação. Entre uma questão e outra conversávamos um pouco a conversa de sempre daqueles que fazem meu curso: o quanto estávamos cansados, atarefados... Estava muito agradável até que o pior aconteceu...
Enquanto explicava uma questão um pouco mais complicada ela acabou curvando-se para frente mais do que deveria num ângulo θ (Lê-se téta) tal que a componente vertical do peso da blusa fez com que esta se afastasse do corpo e antes que alguém pense algo, deixem-me explicar os fatos. Já cursei a disciplina de Introdução a função de várias variáveis na qual aprendi a esboçar gráficos de curvas e superfícies no R³ (espaço tridimensional), o que era mais do que suficiente para deduzir o que a blusa havia deixado de cobrir. Atenção, apenas deduzí, não comprovei, virei o rosto, fui rabiscar alguma coisa no quadro e ela inocentemente, creio eu, continuava naquela posição.
O que fazer? Olhar estava fora de cogitação. Não que eu seja um santo ou o mais puro dos homens, longe disso, eu não sei exatamente porque, talvez tenha a ver com honra e nobreza, talvez não. Talvez eu não faça a menor idéia. Apenas achei que não deveria fazer e apenas não fiz. Mas o que fazer? Falar pra ela ou deixar pra lá? Se eu falasse ela ficaria constrangida e pior, pensaria que eu ví o que não devia. Mas eu não ví. Mas ela pensaria que eu ví. Mas eu não ví! Levar a culpa por algo que mesmo tendo a chance de fazer não se fez é a pior coisa do mundo. Mas se eu não falasse ela poderia acabar sofrendo um constrangimento maior do que uma simples repreensão. O que fazer?
Em meio a esse dilema lembrei-me de um episódio que me ocorreu quando tinha uns 13 anos e estava na 7° série. Certo dia em que seriam realizadas provas, uma colega de classe entra correndo e me falou ofegante:
“Quase perdí a hora, tive que vir correndo desde o portão da escola até a sala.”
Daí ela sentou-se do meu lado, pegou minha mão e colocou sobre seu peito (sempre prefiro falar seio(s) ao invés de peito(s) quando falo de mulheres mas prefirí abrir uma exceção) e me falou:
“Sinta como meu coração está disparado!”
Eu quase morrí de vergonha e rapidamente tentei tirar minha mão:
“estou ocupado aqui, não posso sentir nada.”
Mas ela insistiu, pegou minha mão novamente e colocou de novo sobre seu peito:
“É rápido, sinta como meu coração está acelerado.”
Verifiquei em um tempo muitíssimo menor do que os recomendados 10 segundos para que se verifique a pulsação.
“Pronto, já sentí. Agora me deixe estudar.”
Como nos davamos bem ela estranhou a minha hostilidade. Anos depois quando a contei minha versão do ocorrido ela entendeu o porquê...
De volta para o futuro desse passado, o que fazer? Se eu falasse ela pensaria que eu ví. Mas eu não ví. Mas eu já falei isso. O que fazer? Até agora só pensei mesmo em escrever esse texto que é uma espécie de alerta para as meninas sobre o constrangimento que seus decotes causam em alguns caras viajões que se importam com honra e nobreza. O horário da monitoria acabou, ela agradeceu e foi embora. Mas seu decote não saiu da minha cabeça.