A essência da afirmação é compreensível, mas fazendo uma análise aprofundada é possível ver além. Intuitivamente é razoável conferir a posse a quem produziu o bem ou realizou o serviço, isso possivelmente tem ligação com eventuais traços culturais de tempos passados quando havia apenas a figura do artesão. Mesmo que de forma rústica, todas as etapas de produção eram operacionalizadas por eles, desde a idealização, projeto, produção e até mesmo controle de qualidade. Eles tudo faziam e, além disso, todos os elementos associados da produção a eles pertenciam. Será que esse quadro permaneceu inalterado a ponto de continuarmos validando esse tipo de pensamento?
Com o desenvolvimento dos sistemas
produtivos e com a revolução industrial a produção de bens e serviços tornou-se
um complexo emaranhado de elementos, dificultando uma clara associação de
direitos e consequentemente atribuição de posse. Os trabalhadores agora fazem
parte de empresas e usam suas instalações, equipamentos, materiais para
desenvolver suas atividades laborais.
A literatura cita elementos inerentes
aos sistemas produtivos e embora possam variar de acordo com grau de
complexidade ou especificidades, é comum encontrarmos autores da área da
Qualidade citando 4 ou até 6 “M”s: Mão de obra, métodos, materiais, máquinas,
meio ambiente e medida. Esses autores citam esses elementos como fatores que
influenciam fortemente a qualidade dos produtos por constituírem o cerne dos
sistemas produtivos. É evidente que cada produto e conjunto de processos que o
realizam terão configurações específicas e podem depender mais ou ser baseado
mais em um ou outro desses fatores.
Em termos de contabilidade
observa-se a mesma visão de que os trabalhadores são parte dos sistemas
produtivos, não o todo. Na equação do Contábil do lucro, temos que o Lucro Líquido
Antes do Imposto de Renda é resultado da diferença entre Receita Líquida e
Gastos Totais:
LAIR = RL – GT
Os Gastos Totais podem ser
desdobrados em Custos Totais e Despesas Totais (se não souber a diferença dá
uma pesquisada ou chama no chat), teríamos:
LAIR = RL – (CT
+ DT) OU LAIR = RL – CT – DT.
As Despesas Totais são a soma das
Despesas Variáveis Totais com as Despesas Fixas Totais. A Equação fica assim:
LAIR = RL – CT
– DVT – DFT.
Juro que vai fazer sentido, não pare
aqui. Os Custos Totais podem ser desdobrados em Material Direto, Mão de Obra
Direta e Custos Indiretos de Fabricação e a equação ficaria assim:
LAIR = RL – MD
– MOD – CIF – DVT – DFT
O proletariado é o termo MOD dessa equação
que foi apresentada de forma bastante simplificada, mas bastante simplificada
mesmo.
Mesmo que não tenha entendido todos
os passos do desenvolvimento ou não tenha entendido todos os termos, espero que
pelo menos tenha percebido que existem diversos elementos que compõe a operação
de uma empresa. Então, como apenas um deles pode ser responsável integral pela
produção dos bens? O que diferencia dos demais elementos, ao que me parece,
seria sua capacidade de reivindicar essa posse.
É claro que existem casos de
remuneração baixa, exploração, trabalho escravo.... são o outro extremo no qual os
trabalhadores recebem menos do que lhes é devido (ou nem recebem). De todo
modo, é perceptível que há (ou deve haver) um ponto ou intervalo ótimo de
valores de remuneração capazes de satisfazer as expectativas de empregados (capaz
de atendes suas necessidades básicas, moradia, habitação, alimentação,
educação, higiene, lazer, saúde... aquelas paradinhas constitucionais) e de empregadores
(riscos associados ao segmento de mercado, custo de oportunidade de capital,
risco em relação a outras formas de investimento, etc...).
