segunda-feira, 2 de maio de 2016

Nem tanto nem tão pouco.


 

A essência da afirmação é compreensível, mas fazendo uma análise aprofundada é possível ver além. Intuitivamente é razoável conferir a posse a quem produziu o bem ou realizou o serviço, isso possivelmente tem ligação com eventuais traços culturais de tempos passados quando havia apenas a figura do artesão. Mesmo que de forma rústica, todas as etapas de produção eram operacionalizadas por eles, desde a idealização, projeto, produção e até mesmo controle de qualidade. Eles tudo faziam e, além disso, todos os elementos associados da produção a eles pertenciam. Será que esse quadro permaneceu inalterado a ponto de continuarmos validando esse tipo de pensamento?

Com o desenvolvimento dos sistemas produtivos e com a revolução industrial a produção de bens e serviços tornou-se um complexo emaranhado de elementos, dificultando uma clara associação de direitos e consequentemente atribuição de posse. Os trabalhadores agora fazem parte de empresas e usam suas instalações, equipamentos, materiais para desenvolver suas atividades laborais.

A literatura cita elementos inerentes aos sistemas produtivos e embora possam variar de acordo com grau de complexidade ou especificidades, é comum encontrarmos autores da área da Qualidade citando 4 ou até 6 “M”s: Mão de obra, métodos, materiais, máquinas, meio ambiente e medida. Esses autores citam esses elementos como fatores que influenciam fortemente a qualidade dos produtos por constituírem o cerne dos sistemas produtivos. É evidente que cada produto e conjunto de processos que o realizam terão configurações específicas e podem depender mais ou ser baseado mais em um ou outro desses fatores.

Em termos de contabilidade observa-se a mesma visão de que os trabalhadores são parte dos sistemas produtivos, não o todo. Na equação do Contábil do lucro, temos que o Lucro Líquido Antes do Imposto de Renda é resultado da diferença entre Receita Líquida e Gastos Totais:
LAIR = RL – GT
Os Gastos Totais podem ser desdobrados em Custos Totais e Despesas Totais (se não souber a diferença dá uma pesquisada ou chama no chat), teríamos:
LAIR = RL – (CT + DT)   OU   LAIR = RL – CT – DT.
As Despesas Totais são a soma das Despesas Variáveis Totais com as Despesas Fixas Totais. A Equação fica assim:
LAIR = RL – CT – DVT – DFT.
Juro que vai fazer sentido, não pare aqui. Os Custos Totais podem ser desdobrados em Material Direto, Mão de Obra Direta e Custos Indiretos de Fabricação e a equação ficaria assim:
LAIR = RL – MD – MOD – CIF – DVT – DFT
O proletariado é o termo MOD dessa equação que foi apresentada de forma bastante simplificada, mas bastante simplificada mesmo.

Mesmo que não tenha entendido todos os passos do desenvolvimento ou não tenha entendido todos os termos, espero que pelo menos tenha percebido que existem diversos elementos que compõe a operação de uma empresa. Então, como apenas um deles pode ser responsável integral pela produção dos bens? O que diferencia dos demais elementos, ao que me parece, seria sua capacidade de reivindicar essa posse.
 
É claro que existem casos de remuneração baixa, exploração, trabalho escravo.... são o outro extremo no qual os trabalhadores recebem menos do que lhes é devido (ou nem recebem). De todo modo, é perceptível que há (ou deve haver) um ponto ou intervalo ótimo de valores de remuneração capazes de satisfazer as expectativas de empregados (capaz de atendes suas necessidades básicas, moradia, habitação, alimentação, educação, higiene, lazer, saúde... aquelas paradinhas constitucionais) e de empregadores (riscos associados ao segmento de mercado, custo de oportunidade de capital, risco em relação a outras formas de investimento, etc...).