
“Em vez de luz tem tiroteio no fim do túnel.
Sempre mais do mesmo.
Não era isso que você queria ouvir?”
Este é um trecho da música “Mais do mesmo” da banda Legião Urbana (que dispensa comentários ou apresentações). Pois é, “sempre mais do mesmo”, e isso muito me incomoda. Nesses últimos dias a enxurrada de matérias repetitivas, cansativas e que você viu 12 minutos atrás em outro canal despertou em mim a ira que estava tirando um cochilo leve após o recesso de fim de ano. É engraçado que num mundo com mais de 6,48 bilhões de habitantes só seja possível tratar de um assunto por vez. É lamentável a forma como os telespectadores são obrigados a ver as mesmas notícias e mais lamentável que pouquíssimos sejam os que atentaram para isso. Para evitar ser injusto, generalizar sem saber, fui até as páginas dos principais jornais do mundo. O resultado foi uma vitória avassaladora da monotonia temática: todos os gigantes consultados exibiam reportagens sobre o mesmo assunto. Sei que o desastre do Haiti precisa de atenção, não se trata de falta de sensibilidade, não se trata de querer mascarar a realidade ou fugir da mesma, apenas acho que tenho direito de saber sobre o que mais acontece no mundo.
A já tão sofrível grade de programação aberta do Brasil torna-se ainda mais insuportável pela exaustiva forma como se abordam os temas. Lembro-me que as CPIs estavam em alta. Eram horas de depoimentos, só se falava em corrupção, mensalão e Roberto Jefferson era a personagem da vez. Não se ousava tratar de outro assunto, a disputa entre as emissoras era pra ver quem conseguia fazer as maiores e mais detalhadas matérias (como se houvesse alguém que não soubesse (lembrar que saber é bem diferente de entender) do ocorrido). Aí houve aquele acidente aéreo aqui no Brasil e a conhecida crise na aviação. Pronto. Os repórteres não saíam mais dos aeroportos e por falta do que fazer, qualquer atrasozinho de uma hora já era motivo para entrarem ao vivo e fazer aquele alvoroço (como se alguma coisa fosse pontual em nosso país). Veio o caso do menino João hélio. Que perdeu a vida após ser arrastado por vários quilômetros quando o carro de sua mãe foi roubado. E esse foi o assunto que rendeu por semanas. Discussões sobre redução da maioridade, bla bla bla. Aí jogaram Isabela Nardoni pela janela. A mídia e a população esqueceu todo resto e se voltou para este caso. Daí começou uma verdadeira onda de crianças sendo jogadas por janelas, parecia a febre do “Bungee Jump” sem corda. Mais uma vez quero deixar claro que não se trata de pensar que só passa coisa ruim, que a mídia corre atrás de desgraça ou que eu tenha medo de encarar a realidade. É que enquanto um assunto (um assunto não, O assunto, já que só se fala em um por vez) está rodando, nada mais acontece. Não tem mais assaltos, nem atentados terroristas, corrupção... Só pode exibir matérias que tenham alguma ligação com o ocorrido. Foi assim com a morte de Michael Jackson, a posse de Obama e tantas outras coisas. Hoje mesmo assisti a duas reportagens quase iguais, embora de canais diferentes, sobre o envio de um PM e um cão farejador, ambos de natal, até o Haiti. Quando mudo de canal lá está a mesma coisa passando em uma terceira emissora.
E ainda se fala em ‘jornalismo com imparcialidade’. Imparcialidade uma ova. Imparcialidade significa o que? Que você pode escolher o canal, o repórter e o horário que vai receber as mesmas informações sobre os mesmos assuntos? O pior de tudo é a população, anestesiada, continua assistindo e fazendo o papel de platéia boazinha. Rindo na hora que se deve rir, chorando na hora que se deve chorar, assistindo a toda hora o que eu já cansei de assistir. Será que só eu vejo isso? Que nada, todo mundo vê. Não tem como não vê depois de uma repetição exaustiva. É um massacre à diversidade, à mentalidade e à formação de opinião.
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