sábado, 2 de julho de 2011

Triste fim de Serafim


Certa vez ouvi uma história muito triste. Mesmo agora sua tristeza chega até mim tão rapidamente quanto uma nuvem escura que tapa o sol. Tão rápido quanto um raio que corta o céu queimando o ar. Tão rápido que logo escrevo com medo de outra vez esquecer as palavras que a contam.

Acho que era sobre um garoto que sonhava em voar, mas não tinha asas. Espera, ele tinha asas sim. Acho que por isso foi chamado Serafim. Diziam as línguas (aquelas que sempre têm algo a dizer) que o menino assim teria nascido, pois sua infértil mãe nunca pedira a nenhum santo que lhe concedesse a graça de ter um filho, sendo, portanto, milagre feito pelo próprio poder dos anjos que acabaram compadecendo-se com a dor daquela pobre mulher.

Quando na infância, Serafim não voava, pois suas asas eram pequenas, com penas delicadas e não tinham o poder de voar, mas, mesmo se tivessem sua sempre cuidadosa mãe não permitiria que seu “anjinho” cometesse tal travessura. Mas ao completar onze anos de idade, um anjo chamado Clavus veio a sua casa e pediu para a mãe de Serafim que não mais proibisse o jovem de voar. Ela, sentindo-se sempre devedora do favor concedido, mesmo com o coração apertado permitiu que seu filho provasse também dos céus. E daquele dia em diante, uma vez por semana, descia Clavus e o ensinava não só a voar, mas também sobre como eram as coisas do céu.

E cresceu serafim e o alto era quase sempre seu destino. Mergulhando em nuvens e caindo junto com a chuva. Voar se tornara tão natural quanto seu respirar, o bater do coração, o bater de suas asas. E cada dia mais, voava mais e mais voava, sempre querendo ir alto, mais e mais alto. A terra já não era sua primeira casa. E disse Clavus que não mais viria, já lhe havia ensinado tudo que um anjo poderia ensinar a um ser da terra(outro anjo).

- Vá e procure outros mestres nos céus que te serão mais proveitosos que eu. Eis que seus mestres são todos aqueles que de tanto amar a liberdade tem asas ao invés de mãos, para não se agarrar a algo nem levar nada precioso consigo, pois a maior preciosidade já possuem: o dom dos céus.

Serafim procurou novos mestres e com eles voou:
Voou com pardais e aprendeu a comer cada dia em um lugar.
Voou com canários e com eles aprendeu a cantar.
Voou com abutres e descobriu que não se deve voar com todas as aves
Voou com as águias e com estas aprendeu a voas acima das tempestades, enxergar muito além do horizonte.

E pousava Serafim todos os dias em sua casa para passar alguns instantes com sua mãe. Era a única pessoa com quem ele ainda mantinha contato. Serafim já não via graça nos humanos. Não compreendia a angústia que sentiam em seus corações, preocupando-se com coisas TÃO PEQUENAS e deixando de lado tantas dádivas que a natureza oferecia-lhes. Pobres, tolos mesquinhos.

“Nunca provarão do céu pois seu coração lhes é pesado.”

Serafim só se arrependeu de suas palavras no instante em que a conheceu. Em um de seus vôos acabou avistando algo que brilhava tanto quanto o sol, não, brilhava mais. Uma donzela de pele tão clara que se podia ver os caminhos que o sangue trilhava dentro de seu corpo. Seus cabelos da cor do pôr do sol passavam o poder e encanto do fogo. Seus olhos azuis como águas rasas, claras, límpidas, mais preciosos que o topázio azurra, seu nome era Alla.

E quando levantava vôo pela manhã, Serafim já se via pousando ao lado de Alla, para os longos passeios que faziam de mãos dadas pelos campos. Logo nasceu nele um amor por esta e desta por ele. Ele a amava como mulher e ela o amava como amigo. Clavus tentou o alertar que a relação seria perigosa, que escolhas deveriam ser tomadas e que talvez Serafim não tivesse discernimento suficiente para isso.

Mesmo com toda a atenção que recebia do seu “amigo”, Alla não conseguia sentir outra coisa, embora por vezes desejasse isso e Serafim acabou percebendo que não era correspondido.

“Por que ela não me ama, Clavus?”

Clavus sabiamente respondeu:
“Serafim, certas coisas não nos cabe saber e é melhor que não as conheçamos. O dito que fala que os anjos não têm sexo é verdadeiro. Mas a sua verdade não possui significado biológico e sim afetivo, pois um humano é incapaz de amar um anjo, mesmo que seja cruelmente possível um anjo amar um humano. Os deuses consideram que deram aos anjos de presente as asas e aos humanos... Deus aos humanos o livre arbítrio, que também temos, mas só podemos exercê-lo uma vez na condição de anjos, nos tornando humanos... ”

Serafim haveria de escolher entre a “liberdade” e imortalidade dos anjos ou uma feliz e breve vida, envelhecer e morrer junto com sua amada. A escolha era difícil. Ele procurou o mais alto penhasco e se assentou sobre ele, pensando no que fazer. De lá via os humanos e suas vidas e seus problemas TÃO PEQUENOS, simpatizando cada vez mais com cada um. Enquanto pensava, viu muitas vezes o sol nascer e se pôr, viu por vezes demais. O tempo passou, ele pensou e decidiu. Serei humano.

Desceu a terra e pediu aos deuses:
“Deixem-me, ó deuses, ser homem, sentir o doce dos seus prazeres e do amargo de suas dores.”
Uma leve chuva começou a cair, banhando Serafim, levando a cada gota parte das suas asas que se desmanchavam como neve numa manhã ensolarada.

Ao se sentir mais Homem do que nunca, Serafim correu até a casa da amada. Ora, ele se cansou e demorou mais do que de costume, chegou até a machucar os pés em alguns espinhos, mas ele apenas riu ao sentir aquela dor, pois significava que não mais era anjo, podia ser amado e não apenas amar. Já podia imaginar a vida simples que levariam juntos, sem luxo mas com conforto, que criariam os filhos com todo amor. Imaginou como seria sentir o amor e o corpo quente de uma mulher, da mulher que ele amava.

Mas ao chegar, a casa estava vazia. Esperou um pouco. Esperou bastante e ela não veio. Cansado de esperar perguntou a uma vizinha que acabou lhe contando que a moça havia ficado muito abatida com sua ausência. A família com medo de que ele não voltasse mais e acabou insistindo e convencendo-a a casar-se com um antigo pretendente. Que duro golpe a vida lhe dera. Ter de escolher entre um amor ou suas asas e acabar ficando sem os dois.

Ele deixou de lado sua liberdade para isso? Sua imortalidade, suas asas, seu céu azul. Tudo seria trocado por ela. E foi. Mas ela não o esperou tanto tempo. Por que havia pensado tanto mesmo quando já sabia a resposta que queria responder. Nunca soube do seu sacrifício. Nunca o amou. Com tanta dor no peito, Serafim buscou o mais alto precipício que podia alcançar sem suas asas e de lá se atirou.

Teria Serafim apenas morrido como o simples mortal que se tornara? Ou teriam os deuses se compadecido da dor do pobre anjo e lhe devolveram suas asas? O que há de certo é que Serafim morreu...

De amor...

Um comentário:

  1. Muito bom o texto, eu faria algumas mudanças, mas muito bem escrito :D. Parabéns. Gostaria de ler mais, torne o conto mais misterioso, menos previsível, contos são para instigar. :DDD

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