sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O que é que eu quero?




Quando a memória falha existe algum arrego no espírito que se mistura com um flash antigo te fazendo lembrar...

Lembro-me de muitas tardes lá na casa da minha vó (engraçado que embora a casa também seja do avô, geralmente conferimos a propriedade às avós, já que são quem geralmente fazem nossos agrados). Lembro que chegava da escolinha, ia na cozinha caçar um pão ou filós pra comer vendo desenho enquanto o almoço ficava pronto, almoço este que também seria consumido vendo desenho... Parecia que eu previa que a globo ia tirar do ar meus desenhos de porrada e colocar programas chatos de adulto. Pode ser que não seja o melhor momento pra tocar nesse assunto, mas posso não ter outro. Eu assumo publicamente que assisti as duas primeiras semanas dos Teletubbies... Vou tentar me justificar: a globo fez uma propaganda muito grande e eles ainda tinham cores, estilo Power Rangers... Também achei que podiam ser no estilo Pokémon, tipo fogo, água, planta... Achei que a qualquer momento ia ter um torneio de artes marciais tipo Dragon Ball Z ou que eles iam achar umas armaduras tipo os Cavaleiros do Zodíaco... Sei que passei duas semanas esperando aquelas porcarias começarem a pancadaria ou soltar raio pelas antenas ou pela barriga... Esse trauma me atormentou até um episódio dos Simpsons no qual aparecem os Teletubbies e um deles lança um raio no Homer, aquilo foi um conforto para minha alma. Sei que falei que lembrava das tardes, mas foi inevitável lembrar as manhãs que antecediam essas tardes. Muitas vezes o mais valioso está naquilo que nem sempre damos tanta importância...

Não lembro se a tia da escola passava dever de casa e eu fazia ainda na sala ou se não fazia, de modo que não há registros na minha cabeça de ocupar minhas tardes com estudos antes dos 15 anos. De tarde eu me dedicava a outras atividades: Nunca fui bom de bola, mesmo assim jogava sempre (esse lance da prática levar a perfeição simplesmente não deu certo comigo em diversos casos). No mesmo canto em que jogávamos bola já havia os três buracos clássicos pra jogar bila. Eu também não era bom, perdia sempre, não gostava de jogar apostando. Existia um mercado negro secreto por trás do jogo de bila, tinham uns caras mais velhos que sempre ganhavam... Eles chegavam sem nenhuma, pediam uma bila emprestada e saiam ganhando todas as outras... Muitas vezes eles nem queriam, era só pelo prazer de humilhar os pequenos... Também tinha o futebol de botão que nunca aprendi direito, jogava muito apesar do trabalho que dava pra separar os times... Nesse tempo todo mundo era pobre, vídeo game só na locadora... Nintendo, Play 1, Play 2... Era igualmente divertida a ansiedade antes de chegar, saber se estava lotada ou não e se mesmo que tivesse algum vago, havia ainda a tensão do risco de estarem usando o CD que eu queria. Sem contar que no final a gente ia apostando corrida até em casa. Puxa, chegar em casa e ligar meu Play 3 acabou de perder a graça... Também podia me “enterter” com um filme da sessão da tarde ou até uma novela boa, como foi Roque Santeiro (e não lembro de outra). Fui ver na Wikipédia aqui, Roque santeiro foi exibida no Vale a Pena Ver de Novo no final de 2000 até o meio de 2011. Massa, consegui rastrear minha memória, então, essas lembranças datam dos meus 10 anos de idade...

Às vezes não tinha filme, nem novela, nem jogo de bola nem de bila, nem vídeo game, nem nada! Não falo simplesmente da não ocorrência dos eventos, iniciar qualquer uma dessas atividades era muito mais fácil do que seria hoje em dia, apesar de hoje todo mundo ter celular e internet no celular. Não tinha mensagem no facebook, não tinha whatsapp nem twitter. Esse tempo remonta uma era anterior até mesmo às primitivas conversas nos “3 segundos” ou dos chips 31 anos e dos bônus de sms. Tudo dependia apenas de uma chinela para ir “nas casas” chamar o povo. Na falta de chinelo ia descalço mesmo, só que aí levava bronca. Também não falo dos dias que fiquei de bobeira e acabei fazendo “arte”... Falo de dias em que nada chamava atenção, nada me agradava ou apresentava potencial de me agradar, falo de dias que eu não sabia exatamente o que eu queria, mas sabia que as opções que tinha não me satisfaziam. A psicologia moderna poderia ter diagnosticado que se tratava de um distúrbio comportamental crônico causado por conflitos subconscientes ocasionados, muito provavelmente, por traumas na infância, todavia, a psicologia dos mais velhos ia dizer que era falta de peia, podia ser resolvida ministrando algumas doses de chinelada no rabo do paciente. Num desses dias eu olhei aflito pra minha mãe e perguntei: mãe, o que é que eu quero? Não lembro da resposta dela... Provavelmente não me falou nada filosófico, deve ter levado pra outro lado e me dado alguma coisa pra comer. Não me lembro de nada depois disso, beliscar alguma coisa deve ter resolvido. Todavia, esse tipo de vazio não se preenche com comida, embora se amenize. Não ouso dizer que isso seria um prenuncio dos dilemas existenciais, morais, sociais, profissionais... que me seguiram por toda vida, mas as vezes me pego pensando a mesma coisa, me fazendo a mesma pergunta: O que é que eu quero?

Às vezes não sabemos o que queremos por ter dúvida entre as opções. Às vezes sabemos o que queremos, mas, titubeamos por não saber se isso será realmente bom. Às vezes apenas fingimos não saber por medo de admitir querer o que queremos, às vezes é medo de sair da zona de conforto e ir à luta... Às vezes acabamos desviando o foco para não nos flagrarmos pensando “o que é que eu quero?”. Talvez esteja fazendo isso agora. Ou agora. Provavelmente agora. Agora, quem sabe... Se não antes, agora, certamente agora. Acho que todos nós um dia nos faremos essa pergunta... Gostaria de encerrar falando o que fazer nessa hora, passar alguma técnica que ajude a descobrir o que se quer, como saber se faz bem... Sinceramente não sei, só posso desejar boa sorte, de coração... E que você descubra o que você quer, ou não, já que dizem que não são as respostas que movem o mundo (e as pessoas nele) e sim as perguntas.

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