quarta-feira, 27 de julho de 2011

Tempo perdido


Incrível como essa música me toca, engraçado que enquanto escuto, por vezes sinto os cabelos do braço e até de barba se arrepiando. Incrível como ela tem som de dor e sofrimento. É o que sub-escuto em cada verso. Não sei em que eles pensavam enquanto escreviam essa música. Sinto acordes de uma angústia tão profunda, presságio de uma grande tristeza irremediável.

Sinto inveja de Renato, Dado e Bonfá por terem escrito essa letra, adoraria ter sido o primeiro a ordenar e pontuar essas palavras desse modo.

Não é por estar se completando data nenhuma que vim aqui lembrar a Legião Urbana e de Renato (pra ver se estava certo fui pesquisar a data do aniversário dele e fiquei feliz ao descobrir que a data é bem próxima a do meu, 4 dias apenas) só acho que certas coisas são dignas de ser lembradas. Longe de querer dizer que Legião precisa de mim pra não ser esquecida, só queria mostrar minha admiração pelo excelente trabalho.

Mas, se a música me toca tanto quanto toca, ela não precisa que eu me estenda no comentário.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Antes que eu durma e esqueça


Lembro do primeiro gol,
Lembro de quando escolhi o time.
Lembro que você escreve uma palavra a toa
E depois escreve outra que rime.

Lembro de quando brincava em casa,
Lembro de quando brincava na rua.
Lembro de tardes ensolaradas,
Lembro de noites sem lua.

Lembro que pisei em tapete vermelho,
Lembro que já andei no esgoto.
Lembro que há quem me ame
E quem queira me ver morto.

Lembro do sol no inverno,
Lembro de chuva no verão.
De algumas coisas eu lembro,
Outras não passam de ilusão.

Lembro que estou deitado,
Estava indo dormir.
Mas essas palavras vieram a minha mente
Eu apenas as deixei sair.


Lembre-se sempre, meu caro,
Na vida, tudo tem um fim.
Espero que lembre dessas palavras
Que tarde da noite foram escritas por mim.

sábado, 2 de julho de 2011

Triste fim de Serafim


Certa vez ouvi uma história muito triste. Mesmo agora sua tristeza chega até mim tão rapidamente quanto uma nuvem escura que tapa o sol. Tão rápido quanto um raio que corta o céu queimando o ar. Tão rápido que logo escrevo com medo de outra vez esquecer as palavras que a contam.

Acho que era sobre um garoto que sonhava em voar, mas não tinha asas. Espera, ele tinha asas sim. Acho que por isso foi chamado Serafim. Diziam as línguas (aquelas que sempre têm algo a dizer) que o menino assim teria nascido, pois sua infértil mãe nunca pedira a nenhum santo que lhe concedesse a graça de ter um filho, sendo, portanto, milagre feito pelo próprio poder dos anjos que acabaram compadecendo-se com a dor daquela pobre mulher.

Quando na infância, Serafim não voava, pois suas asas eram pequenas, com penas delicadas e não tinham o poder de voar, mas, mesmo se tivessem sua sempre cuidadosa mãe não permitiria que seu “anjinho” cometesse tal travessura. Mas ao completar onze anos de idade, um anjo chamado Clavus veio a sua casa e pediu para a mãe de Serafim que não mais proibisse o jovem de voar. Ela, sentindo-se sempre devedora do favor concedido, mesmo com o coração apertado permitiu que seu filho provasse também dos céus. E daquele dia em diante, uma vez por semana, descia Clavus e o ensinava não só a voar, mas também sobre como eram as coisas do céu.

E cresceu serafim e o alto era quase sempre seu destino. Mergulhando em nuvens e caindo junto com a chuva. Voar se tornara tão natural quanto seu respirar, o bater do coração, o bater de suas asas. E cada dia mais, voava mais e mais voava, sempre querendo ir alto, mais e mais alto. A terra já não era sua primeira casa. E disse Clavus que não mais viria, já lhe havia ensinado tudo que um anjo poderia ensinar a um ser da terra(outro anjo).

- Vá e procure outros mestres nos céus que te serão mais proveitosos que eu. Eis que seus mestres são todos aqueles que de tanto amar a liberdade tem asas ao invés de mãos, para não se agarrar a algo nem levar nada precioso consigo, pois a maior preciosidade já possuem: o dom dos céus.

Serafim procurou novos mestres e com eles voou:
Voou com pardais e aprendeu a comer cada dia em um lugar.
Voou com canários e com eles aprendeu a cantar.
Voou com abutres e descobriu que não se deve voar com todas as aves
Voou com as águias e com estas aprendeu a voas acima das tempestades, enxergar muito além do horizonte.

E pousava Serafim todos os dias em sua casa para passar alguns instantes com sua mãe. Era a única pessoa com quem ele ainda mantinha contato. Serafim já não via graça nos humanos. Não compreendia a angústia que sentiam em seus corações, preocupando-se com coisas TÃO PEQUENAS e deixando de lado tantas dádivas que a natureza oferecia-lhes. Pobres, tolos mesquinhos.

“Nunca provarão do céu pois seu coração lhes é pesado.”

Serafim só se arrependeu de suas palavras no instante em que a conheceu. Em um de seus vôos acabou avistando algo que brilhava tanto quanto o sol, não, brilhava mais. Uma donzela de pele tão clara que se podia ver os caminhos que o sangue trilhava dentro de seu corpo. Seus cabelos da cor do pôr do sol passavam o poder e encanto do fogo. Seus olhos azuis como águas rasas, claras, límpidas, mais preciosos que o topázio azurra, seu nome era Alla.

E quando levantava vôo pela manhã, Serafim já se via pousando ao lado de Alla, para os longos passeios que faziam de mãos dadas pelos campos. Logo nasceu nele um amor por esta e desta por ele. Ele a amava como mulher e ela o amava como amigo. Clavus tentou o alertar que a relação seria perigosa, que escolhas deveriam ser tomadas e que talvez Serafim não tivesse discernimento suficiente para isso.

Mesmo com toda a atenção que recebia do seu “amigo”, Alla não conseguia sentir outra coisa, embora por vezes desejasse isso e Serafim acabou percebendo que não era correspondido.

“Por que ela não me ama, Clavus?”

Clavus sabiamente respondeu:
“Serafim, certas coisas não nos cabe saber e é melhor que não as conheçamos. O dito que fala que os anjos não têm sexo é verdadeiro. Mas a sua verdade não possui significado biológico e sim afetivo, pois um humano é incapaz de amar um anjo, mesmo que seja cruelmente possível um anjo amar um humano. Os deuses consideram que deram aos anjos de presente as asas e aos humanos... Deus aos humanos o livre arbítrio, que também temos, mas só podemos exercê-lo uma vez na condição de anjos, nos tornando humanos... ”

Serafim haveria de escolher entre a “liberdade” e imortalidade dos anjos ou uma feliz e breve vida, envelhecer e morrer junto com sua amada. A escolha era difícil. Ele procurou o mais alto penhasco e se assentou sobre ele, pensando no que fazer. De lá via os humanos e suas vidas e seus problemas TÃO PEQUENOS, simpatizando cada vez mais com cada um. Enquanto pensava, viu muitas vezes o sol nascer e se pôr, viu por vezes demais. O tempo passou, ele pensou e decidiu. Serei humano.

Desceu a terra e pediu aos deuses:
“Deixem-me, ó deuses, ser homem, sentir o doce dos seus prazeres e do amargo de suas dores.”
Uma leve chuva começou a cair, banhando Serafim, levando a cada gota parte das suas asas que se desmanchavam como neve numa manhã ensolarada.

Ao se sentir mais Homem do que nunca, Serafim correu até a casa da amada. Ora, ele se cansou e demorou mais do que de costume, chegou até a machucar os pés em alguns espinhos, mas ele apenas riu ao sentir aquela dor, pois significava que não mais era anjo, podia ser amado e não apenas amar. Já podia imaginar a vida simples que levariam juntos, sem luxo mas com conforto, que criariam os filhos com todo amor. Imaginou como seria sentir o amor e o corpo quente de uma mulher, da mulher que ele amava.

Mas ao chegar, a casa estava vazia. Esperou um pouco. Esperou bastante e ela não veio. Cansado de esperar perguntou a uma vizinha que acabou lhe contando que a moça havia ficado muito abatida com sua ausência. A família com medo de que ele não voltasse mais e acabou insistindo e convencendo-a a casar-se com um antigo pretendente. Que duro golpe a vida lhe dera. Ter de escolher entre um amor ou suas asas e acabar ficando sem os dois.

Ele deixou de lado sua liberdade para isso? Sua imortalidade, suas asas, seu céu azul. Tudo seria trocado por ela. E foi. Mas ela não o esperou tanto tempo. Por que havia pensado tanto mesmo quando já sabia a resposta que queria responder. Nunca soube do seu sacrifício. Nunca o amou. Com tanta dor no peito, Serafim buscou o mais alto precipício que podia alcançar sem suas asas e de lá se atirou.

Teria Serafim apenas morrido como o simples mortal que se tornara? Ou teriam os deuses se compadecido da dor do pobre anjo e lhe devolveram suas asas? O que há de certo é que Serafim morreu...

De amor...

sábado, 28 de maio de 2011

O decote que não sai da minha cabeça.


Certo dia enquanto estava no horário da monitoria, via-me obrigado a permanecer naquela sala vazia até que o horário acabasse. E punha os olhos para fora daquela sala buscando qualquer ser que me livrasse daquele tédio. Freqüentemente é assim, as provas passam e ninguém mais que aprender nada, ninguém tem dúvidas, ninguém quer fazer uma questão. Mesmo assim, os monitores devem permanecer nas salas até que o horário acabe.

Voltando à solidão daquela sala, já estava farto. Já havia contado e recontado as cadeiras inclusive separando-as quanto serem normais ou para canhotos. Já havia buscado um padrão que explicasse as cadeiras fora das filas como se quisesse ver uma lógica naquela desordem. Já havia tentado juntar as últimas palavras que haviam naquele grande quadro branco, tentando decifrar pelo menos do que tratavam. Foi quando ela chegou.

Já nos conhecíamos de vista, ela já estivera na minha monitoria em outra oportunidade. Desejou-me um bom dia, entrou, sentou-se e pediu que a ajudasse com algumas questões. E eu que reclamava do tédio e da solidão agora tinha companhia e uma ocupação. Entre uma questão e outra conversávamos um pouco a conversa de sempre daqueles que fazem meu curso: o quanto estávamos cansados, atarefados... Estava muito agradável até que o pior aconteceu...

Enquanto explicava uma questão um pouco mais complicada ela acabou curvando-se para frente mais do que deveria num ângulo θ (Lê-se téta) tal que a componente vertical do peso da blusa fez com que esta se afastasse do corpo e antes que alguém pense algo, deixem-me explicar os fatos. Já cursei a disciplina de Introdução a função de várias variáveis na qual aprendi a esboçar gráficos de curvas e superfícies no R³ (espaço tridimensional), o que era mais do que suficiente para deduzir o que a blusa havia deixado de cobrir. Atenção, apenas deduzí, não comprovei, virei o rosto, fui rabiscar alguma coisa no quadro e ela inocentemente, creio eu, continuava naquela posição.

O que fazer? Olhar estava fora de cogitação. Não que eu seja um santo ou o mais puro dos homens, longe disso, eu não sei exatamente porque, talvez tenha a ver com honra e nobreza, talvez não. Talvez eu não faça a menor idéia. Apenas achei que não deveria fazer e apenas não fiz. Mas o que fazer? Falar pra ela ou deixar pra lá? Se eu falasse ela ficaria constrangida e pior, pensaria que eu ví o que não devia. Mas eu não ví. Mas ela pensaria que eu ví. Mas eu não ví! Levar a culpa por algo que mesmo tendo a chance de fazer não se fez é a pior coisa do mundo. Mas se eu não falasse ela poderia acabar sofrendo um constrangimento maior do que uma simples repreensão. O que fazer?

Em meio a esse dilema lembrei-me de um episódio que me ocorreu quando tinha uns 13 anos e estava na 7° série. Certo dia em que seriam realizadas provas, uma colega de classe entra correndo e me falou ofegante:
“Quase perdí a hora, tive que vir correndo desde o portão da escola até a sala.”
Daí ela sentou-se do meu lado, pegou minha mão e colocou sobre seu peito (sempre prefiro falar seio(s) ao invés de peito(s) quando falo de mulheres mas prefirí abrir uma exceção) e me falou:
“Sinta como meu coração está disparado!”
Eu quase morrí de vergonha e rapidamente tentei tirar minha mão:
“estou ocupado aqui, não posso sentir nada.”
Mas ela insistiu, pegou minha mão novamente e colocou de novo sobre seu peito:
“É rápido, sinta como meu coração está acelerado.”
Verifiquei em um tempo muitíssimo menor do que os recomendados 10 segundos para que se verifique a pulsação.
“Pronto, já sentí. Agora me deixe estudar.”
Como nos davamos bem ela estranhou a minha hostilidade. Anos depois quando a contei minha versão do ocorrido ela entendeu o porquê...

De volta para o futuro desse passado, o que fazer? Se eu falasse ela pensaria que eu ví. Mas eu não ví. Mas eu já falei isso. O que fazer? Até agora só pensei mesmo em escrever esse texto que é uma espécie de alerta para as meninas sobre o constrangimento que seus decotes causam em alguns caras viajões que se importam com honra e nobreza. O horário da monitoria acabou, ela agradeceu e foi embora. Mas seu decote não saiu da minha cabeça.

sábado, 30 de abril de 2011

Xantypa


Quase toda sexta-feira tenho ensaio na igreja à noite (toco baixo), como tocamos no Sábado pela manhã e moro um pouco distante da igreja, aproveito e durmo na casa de Stefferson, a quem não posso me referir como “um amigo meu” e sim como “Meu amigo”. Geralmente jogamos um pouco de vídeo-game, olhamos besteiras engraçadas na internet (antigamente jogávamos bola, mas desde o dia em que quebrei meu nariz com meu próprio joelho, num momento mágico do futebol, desisti e de certa forma fiquei até com medo).

Na casa de Steffeson mora Xantypa, uma bela cachorrinha vira-lata, pêlo escuro e sempre brincalhona (só pra esclarecer, prefiro cachorrinha a cadelinha, acho mais carinhoso). Ela mora em sua casinha que fica no quintal da casa. A missão de Xantypa na terra, ou seja, no quintal da casa de Stefferson, era proteger as galinhas que alí são criadas, sendo ela, portanto, uma espécie de cão pastor, mas precisamente um cão pastor de galinhas.

Mas logo que o tempo foi passando, percebeu-se que, talvez, Xantypa não tivesse vocação para a missão que recebera. Em primeiro lugar, não cresceu muito, sendo assim tornava-se incapaz de espantar um ladrão de galinha, por mais descorajoso que este pudesse ser. Em segundo lugar, por vezes ouvia-se muito barulho no quintal, quando Aloísio, o pai de Stefferson, dirigia-se ao quintal só achava as galinhas assustadas e Xantypa com um pinto na boca, judiando do pobre ser. Realmente ela não tinha vocação para ser um cão pastor de galinhas, nem todos os cães nascem com esse impressionante e maravilhoso dom.

Mas quando descobriram que Xantypa fazia mais mal do que bem aos galináceos já era tarde demais, todos na casa já tinham se apegado a ela e, como sabemos, quase sempre o coração fala mais alto. Portando, Xantypa não tinha mais razão para existir, a não ser o fato de ser o bibelô da casa... Imagino as noites que ela deve ter passado sem dormir tendo crises existenciais: “de onde eu vim?”, “por que estou aqui?”, “Au, Au!”. Pobrezinha. Nem cavar, nem latir, nada a animava, nem as galinhas. Morder o pescoço de um pinto já não lhe alegrava. Ela queria se sentir útil, fazer jus a ração e aos doces que recebia e tanto apreciava. Mas um dia a sorte dela mudou.

A casa de Stefferson fica bem perto do rio e por isso, vez por outra aparecem uns animais “selvagens” pela redondeza. Preás, tejus, e até soins. Inclusive um desses soins se acostumou a ir pegar comida lá em Stefferson. Pedaços de banana, pão, até cream cracker. Seu nome era Chico. Era até o dia em que em que Chico apareceu com um filhotezinho, dia em que perceberam que se tratava de Chica. Mas nem todos esses visitantes são bem vindos. Vez por outra aparecem ratos-do-mato. Bom, existe porco-do-mato, cachorro-do-mato, gato-do-mato, porque não rato-do-mato? Ou você acha que todos os ratos, assim como Jerry, moram em mini apartamentos bem mobiliados dentro das paredes?

Certo dia perceberam que havia um rato na cozinha, tentaram matá-lo e este acabou fugindo para o quintal. Quem salvou o dia? Isso mesmo, Xantypa. Em um ato heróico, saltou executando um bote certeiro e deu cabo da feroz ratazana. Todos ficaram felizes e orgulhosos, principalmente Xantypa, que voltou a ter alegria em seus dias pois descobrira qual era seu dom, caçar ratos.

Tempos depois outro rato apareceu e o pensamento foi unânime, tragam Xantypa. Ela entrou com um porte imponente, coluna ereta. Andou pra lá e pra cá, tentando encontrar alguma pista que a fizesse desvendar o paradeiro do rato.
“Vejam, parece que ela farejou algo.”
Xantypa saiu seguindo aquele rastro com muita convicção, todos estavam certos que em pouco tempo ela encontraria o rato e o exterminaria. De repente ela para e fica erguida sobre duas pernas apontando com o fucinho para cima de um balcão onde terminava a trilha que seguira. Nada de rato! Xantypa tinha farejado até a vasilha onde guardavam os biscoitos, bolachas e outros doces... Que bela caçadora.

Seria Xantypa um fracasso? Ela só teria matado o outro rato por que este teria encontrado alguma coisa doce no lixo e havia ficado com o cheiro das guloseimas, o que acabou atraindo xantypa? Não sei. Talvez nunca saiba. Mas não custa imaginar...

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Vetor normal ao plano das idéias.


(Saudade)
Sinto fome, sinto medo,
Sinto que o tempo não passa.
Sinto sede, sinto sono,
Mas não sinto a sua falta.

(Alegria)
Vejo graça, sinto risos,
Sinto aquela nostalgia,
Sinto os tempos de criança,
Sinto a mais inocente alegria.

(Sensibilidade)
Sinto o cheiro, sinto a brisa,
Sinto o gosto, sintonia,
Sinto que não vem de longe
Esta doce melodia.

(Amizade)
Sinto fé, sinto confiança,
Sinto tua sinceridade,
Sinto você sempre por perto,
Sinto o que é amizade.

(Culpa)
Sinto tédio, que tristeza,
Sinto dor e solidão.
Sinto culpa, sinto remorso,
Sangue inocente em minha mão.

(Rejeição)
Sinto caras, sinto olhares,
Sinto que não sou bem-vindo,
Sinto-me preso, sinto entalo,
Sinto o coração partido.

(Déjà vu)
Sinto inveja, sinto agonia,
Sinto o vento e sinto frio,
Sinto que já passei por isso,
E na pele sinto arrepio.

(Adeus)
Sinto que é tarde, sinto muito,
Sinto que chegou a hora,
Peço perdão por meus erros,
Au revoir! Arrumo as malas e vou embora...

Ela odeia Ele


Não sei o porquê, não sei por onde, não sei como. Mas sei que Ela não gostava dEle. Não que fosse missão impossível, passível de filmagem em Hollywood (ou até mesmo em Bollywood); Ele como todo mundo, ou até mais, tinha seus defeitos aos montes e por cima uma pitadinha de qualidades, mas, nem por isso mereceria seu desprezo eterno.

Como tudo começou? Não sei. Ele, coitado, não faz idéia. Jura que é coisa só dá cabeça dEla, mas, não descarta a possibilidade de ter feito algo causador disso. Desde pequeno acostumou-se a levar a culpa por tudo que aparecia de errado em casa, ser culpado já era algo mais que intrínseco a sua pessoa:

No começo, perguntavam-lhe:
“Foi você que fez isso?”

Ele respondia:
“não, não fui eu!”

Anos de experiência, sabia que quando colocavam isso na cabeça inevitavelmente a responsabilidade seria dele e dizer que não havia feito só dava comprimento a conversa e mais chateação...

Depois, perguntavam-lhe:
“Foi você que fez?”

Ele respondia:
“sim, fui eu! Bati o carro, não coloquei o lixo pra fora, bebi toda a água gelada e não enchi as garrafas. Também sou responsável por não termos crescido os sonhados 5% no PIB, pela diabetes da vovó, pela péssima campanha que o Vasco tem feito esses anos, pelas férias do papai que nunca chegam, pelo alto número de mortes no trânsito e pelo aumento inexplicável e abusivo no preço da gasolina. Por minha culpa: houve essa guerra no Iraque e no Afeganistão, o petróleo do mundo está acabando, os Sarney continuam mandando no Maranhão, e o Lula ta sem um dedo em uma das mãos. Além disso eu to impedindo que descubram a cura pro câncer e a casa só está suja porque não quis tirar os chinelos quando entrei.”

Desse modo irônico, ao invés de levar a culpa, se passava por vítima, se livrava das acusações injustas (e das justas também) e encurtava a conversa.

“É, no fundo Ela me odeio por causa daquele dia que eu fiz aquela coisa que Ela não gostou... Seja lá esse dia qual for e seja aquela coisa qual for.”

Mas voltando ao ódio que Ela sentia por Ele, não consigo imaginar uma situação que fizesse tudo isso ter um sentido, prefiro aceitar o insosso Big Bang. Ela era caseira enquanto ele odiava sair. Ela era dedicada aos estudos, queria passar no vestibular enquanto Ele já fazia faculdade. Ela era bastante educada e Ele pelo menos procurava ser. Ambos gostavam de “cortar” os outros e, pelo que dizem, eram um pouco mais espertos que a média. Talvez eles até fossem muito parecidos e, talvez, aí estivesse o problema. Aquilo que Ela achava insuportável nEle, mesmo o espelho não sendo capaz de mostrar, muito provavelmente Ela também tivesse.

Se Ele tivesse mais tempo, bolaria mais teorias.

“Será que ela é nazista e acha que sou judeu?”

“Será que ela é Judia e me viu comer carne de porco?”

“Será que Ela é “porco” e pensa que eu sou “timão”?”

“Será coisa da minha cabeça, só imaginação?”

Mas nem tudo faz sentido no mundo e Ele, sabendo disso, respeitava o que Ela sentia, mesmo sem entender, mesmo sem saber ao certo se é que Ela sentia algo. É claro que isso atiçava sua curiosidade. Será que foi algo que Ele fez? Algo que Ele disse? Algo que Ele vestiu? O problema é se tudo fosse por algo que Ele era. Aí as coisas sairiam do campo de um possível mal entendido e entrariam no campo do pessoal, do irremediável. Ah, talvez se Ele fosse menos chato e Ela mais tolerante. Mas não importa muito como as coisas poderiam ser especialmente em momentos em que elas já são...

Um dia tomando coragem emprestada com alguém, dirigiu-se a Ela e disparou:

“Por que você não gosta de mim?”

“Não sei, só sei que não gosto.” Respondeu Ela.

Que todo mundo precisa gostar de alguém é algo que faz parte do senso comum, mas ainda não faz parte desse senso que todo mundo precisa odiar alguém. Vai ver é só isso. Acontece... Aconteceu com Ele... Pode acontecer comigo ou com você... Ah, pode acontecer com Ela também, viu? Nunca se sabe...