segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Luzes...


Não me agrada viajar. Sair da minha casa, do meu conforto, do meu desconforto, do que é meu. A preocupação com o que levar e a preocupação para que nada por lá fique. Quando o destino é cidade maior que a minha, pior ainda, pois lá dependerei de alguém para me locomover e realizar minhas tarefas (cidade maior que a minha só vou quando a situação me obriga). E quando o destino é cidade menor (necessariamente na casa de amigos, já que minha família mora toda na minha cidade) também não ando desacompanhado, mas dessa vez, faço questão que seja mesmo assim.

Cada carro que passa me intriga. De onde vem? Para onde vai? Por que essa pressa? Muitas vezes é possível ter ideia do que se trata pelo carro e a cara do motorista (pelo menos eu penso que dá). Aquele carro vermelho com o som estrondando com quatro rapazes com cara de playboy... estão indo a uma festa. O senhor de idade trafegando lentamente no seu calhambeque... está indo a uma consulta médica. A moça com cara de aflita sozinha em seu carro... Ou é namorada de um dos rapazes, ou filha do senhor que vai se consultar, ou está apenas com receio de perder o último capítulo da novela.

Quando a noite chega, sua escuridão me tira os rostos que outrora podia ver. Os carros passam a serem apenas luzes: Vermelhos são os que vão no sentido em que vou; amarelos são os que vem no sentido oposto; Brancos são aqueles que tem dinheiro abastado pra xenon. E é assim que tudo é visto: luzes. Motos se tornam em luzes solitárias; Carros se tornam um par de luzes; cidades e povoados se tornam aglomerados de luzes e cada uma tem sua história, um porque de está acesa.

Chama-me atenção cada ponto de luz, até os mais isolados, inclusive estes, principalmente estes. O que será que iluminam? Uma partida de futebol entre crianças..? Uma brincadeira de roda..? Um jogo de dominó entre os compadres..? Quem sabe há apenas um cachorro com sua típica respiração acelerada, orelhas erguidas e cara de quem acabou de bocejar. Quem sabe nada há a sua volta.

Mas talvez haja uma moça, quieta de tão tímida, bela de tão simples. Morena de pele avermelhada; cabelos finos, lisos e escorridos; seus também tímidos e grandes olhos brincam de se esconder em suas pálpebras quando não estão fixos no chão, evitando cruzar com os meus. Seu nome é simples e forte, não o ouvi direito, ela sussurrou tão baixinho que tive que perguntar mais uma vez e ainda outra. Devia ser Maria, como tantas santas, como ela. Por ela eu deixaria toda essa correria, essas idas e vindas por uma vida parada, no espaço e no tempo. Não seria da magreza das modelos nem do corpo escultural das que frequentam musculação, seria como ela é, como só ela é, seria ela! Não vestiria roupas caras nem perfumes importados, seus vestidos brancos de renda são tudo que ela precisa para ser bela e seu cheiro de malva e alecrim é igual ao que os ventos trazem antes da chuva cair.

E todos os planos e projetos que fiz pra minha vida se desmanchariam como um castelo feito na areia, mas, quem se importa? O que mais importa se aqui eu sou feliz? E por nenhuma forma de talvez felicidade eu trocaria esta que é certa. O que mais encheria meu coração de alegria do que ver nossos três pequenos correndo descalços a brincar? Teríamos três filhos. Uma menina e dois meninos, para que eles revezassem na tarefa de pastorar a irmã na idade dos namoros. Se o primeiro “filho” for uma filha e a segunda também, por aí estaria fechada a fábrica! Um menino não daria conta de pastorar as duas, ainda mais sendo o caçula. Se fosse outra menina... Eu estaria perdido...

Certas frases que escuto nunca saem da minha cabeça. Quando eu tinha uns onze anos, ouvi um cara falar: “só faça com a filha dos outros aquilo que você vai querer que façam com suas filhas”. Isso nunca saiu da minha cabeça (e confesso que muito me influenciou). Uns menos conservadores parafraseariam: “faça o que quiser com a filha dos outros e reze pra não ter filhas”, “faça com a filha dos outros aquilo que sem dúvida vão fazer com suas filhas”. Por via das dúvidas é que quero meninos para pastorá-las. Elas saíram a cara da mãe (que bom!). Uma se chamaria Joana e a outra ainda não sei. Talvez também seja Maria... Mariana pra mim está ótimo. Elas me chamariam de papai, em meus braços se sentiriam seguras e com elas nos braços me sentiria um super-herói. E essa alegria tão simples faria com que tudo o que antes vivi se tornasse completamente inútil, fútil e insignificante.

Mas fui mesquinho... Não abandonei minha rota para que pudesse encontrar ou pelo menos procurar essas coisas perto daquela luz. E continuo no vai e vem da vida que, se me satisfizesse, não estaria aqui a imaginar outro mundo que não o meu, outro mundo que não necessariamente existe, não necessariamente inexiste... Necessário mesmo é viver.

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