segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Luzes...


Não me agrada viajar. Sair da minha casa, do meu conforto, do meu desconforto, do que é meu. A preocupação com o que levar e a preocupação para que nada por lá fique. Quando o destino é cidade maior que a minha, pior ainda, pois lá dependerei de alguém para me locomover e realizar minhas tarefas (cidade maior que a minha só vou quando a situação me obriga). E quando o destino é cidade menor (necessariamente na casa de amigos, já que minha família mora toda na minha cidade) também não ando desacompanhado, mas dessa vez, faço questão que seja mesmo assim.

Cada carro que passa me intriga. De onde vem? Para onde vai? Por que essa pressa? Muitas vezes é possível ter ideia do que se trata pelo carro e a cara do motorista (pelo menos eu penso que dá). Aquele carro vermelho com o som estrondando com quatro rapazes com cara de playboy... estão indo a uma festa. O senhor de idade trafegando lentamente no seu calhambeque... está indo a uma consulta médica. A moça com cara de aflita sozinha em seu carro... Ou é namorada de um dos rapazes, ou filha do senhor que vai se consultar, ou está apenas com receio de perder o último capítulo da novela.

Quando a noite chega, sua escuridão me tira os rostos que outrora podia ver. Os carros passam a serem apenas luzes: Vermelhos são os que vão no sentido em que vou; amarelos são os que vem no sentido oposto; Brancos são aqueles que tem dinheiro abastado pra xenon. E é assim que tudo é visto: luzes. Motos se tornam em luzes solitárias; Carros se tornam um par de luzes; cidades e povoados se tornam aglomerados de luzes e cada uma tem sua história, um porque de está acesa.

Chama-me atenção cada ponto de luz, até os mais isolados, inclusive estes, principalmente estes. O que será que iluminam? Uma partida de futebol entre crianças..? Uma brincadeira de roda..? Um jogo de dominó entre os compadres..? Quem sabe há apenas um cachorro com sua típica respiração acelerada, orelhas erguidas e cara de quem acabou de bocejar. Quem sabe nada há a sua volta.

Mas talvez haja uma moça, quieta de tão tímida, bela de tão simples. Morena de pele avermelhada; cabelos finos, lisos e escorridos; seus também tímidos e grandes olhos brincam de se esconder em suas pálpebras quando não estão fixos no chão, evitando cruzar com os meus. Seu nome é simples e forte, não o ouvi direito, ela sussurrou tão baixinho que tive que perguntar mais uma vez e ainda outra. Devia ser Maria, como tantas santas, como ela. Por ela eu deixaria toda essa correria, essas idas e vindas por uma vida parada, no espaço e no tempo. Não seria da magreza das modelos nem do corpo escultural das que frequentam musculação, seria como ela é, como só ela é, seria ela! Não vestiria roupas caras nem perfumes importados, seus vestidos brancos de renda são tudo que ela precisa para ser bela e seu cheiro de malva e alecrim é igual ao que os ventos trazem antes da chuva cair.

E todos os planos e projetos que fiz pra minha vida se desmanchariam como um castelo feito na areia, mas, quem se importa? O que mais importa se aqui eu sou feliz? E por nenhuma forma de talvez felicidade eu trocaria esta que é certa. O que mais encheria meu coração de alegria do que ver nossos três pequenos correndo descalços a brincar? Teríamos três filhos. Uma menina e dois meninos, para que eles revezassem na tarefa de pastorar a irmã na idade dos namoros. Se o primeiro “filho” for uma filha e a segunda também, por aí estaria fechada a fábrica! Um menino não daria conta de pastorar as duas, ainda mais sendo o caçula. Se fosse outra menina... Eu estaria perdido...

Certas frases que escuto nunca saem da minha cabeça. Quando eu tinha uns onze anos, ouvi um cara falar: “só faça com a filha dos outros aquilo que você vai querer que façam com suas filhas”. Isso nunca saiu da minha cabeça (e confesso que muito me influenciou). Uns menos conservadores parafraseariam: “faça o que quiser com a filha dos outros e reze pra não ter filhas”, “faça com a filha dos outros aquilo que sem dúvida vão fazer com suas filhas”. Por via das dúvidas é que quero meninos para pastorá-las. Elas saíram a cara da mãe (que bom!). Uma se chamaria Joana e a outra ainda não sei. Talvez também seja Maria... Mariana pra mim está ótimo. Elas me chamariam de papai, em meus braços se sentiriam seguras e com elas nos braços me sentiria um super-herói. E essa alegria tão simples faria com que tudo o que antes vivi se tornasse completamente inútil, fútil e insignificante.

Mas fui mesquinho... Não abandonei minha rota para que pudesse encontrar ou pelo menos procurar essas coisas perto daquela luz. E continuo no vai e vem da vida que, se me satisfizesse, não estaria aqui a imaginar outro mundo que não o meu, outro mundo que não necessariamente existe, não necessariamente inexiste... Necessário mesmo é viver.

sábado, 5 de novembro de 2011

Ciência ou Religião?


Não sei de onde tiraram a idéia de que ciência e religião são coisas antagônicas. Lembrei. Teve um “pesquisador” que realizou um levantamento no meio acadêmico norte americano e constatou que aproximadamente 65% dos acadêmicos não criam em Deus. Essa pesquisa foi, inclusive, refeita tempos depois por outro “pesquisador” e o resultado foi muito próximo desse valor. Com esse resultado ele esperava que a população concluísse que quem é “inteligente” não acredita nessa “baboseira” de Deus. Mas essa pesquisa não foi muito bem vista nem aceita no meio acadêmico (até por muitos ateus), pois a pergunta não apenas perguntava sobre a crença em Deus e sim na crença em um Deus acessível intelectualmente através de preces e que este Deus respondia-as. Ou seja, a pergunta era pouco generalista. Podia ser que aqueles que responderam não para essa pergunta acreditassem em Deus mas talvez não nos moldes que a pergunta o descrevia ou simplesmente não tinham uma definição para Deus.

Mas indo ao que gostaria de chegar, discordo dessa rivalização entre ciência e religião. Imagino a seguinte situação. Dois grupos de estudiosos sabem da localização de um artefato enterrado e começam a escavar para alcançá-lo. Eles prosseguem cada um a seu modo, com suas teorias e crenças e enfim chegam ao artefato, cada um por seu túnel, chegando um de um lado e o outro do outro. Para sua surpresa, os dois grupos descobrem que não é possível, em curto prazo, retirar esse objeto e expô-lo a luz do sol para descobrir sua cor. Daí eles decidem levar lanternas e iluminá-lo ainda longe da superfície e sem movê-lo. Um grupo conclui que ele é azul e o outro que ele é vermelho. Ou seja, existem duas teorias que tentam explicar a verdade:
Teoria 1: O objeto é azul e não vermelho.
Teoria 2: O objeto é vermelho, ou seja, não é azul.

Cada grupo passa a defender ferozmente sua ótica com argumentos convincentes e bem fundamentados, acha absurda a opinião dos “tolos” do outro grupo. A sociedade fica chocada e dividida. A tendência é que a parcela que dê ouvidos ao grupo que prega que o artefato é azul comece a pensar e também defender que o objeto seja azul, enquanto que a parcela que debate na roda dos pesquisadores que acreditam que o artefato é vermelho pouco a pouco é convencida de que ele de fato é vermelho.

Desde quando comecei a escrever esse texto já se passaram alguns dias e freqüentemente me pergunto se o objeto é azul ou vermelho. Azul ou vermelho? Vermelho? Azul? Por que sempre queremos que as coisas sejam de um jeito OU de outro? Azuis ou Vermelhas? Mas para a cor do artefato, apresentarei a seguir três possibilidades as quais nenhuma revela um objeto vermelho OU azul:

1. Vermelho e Azul e Verde
Anos de debates e discussões exaltadas chegam ao fim quando finalmente se pôde desenterrar completamente o artefato e descobrir que ele é tanto azul quanto vervelho, além de verde. O artefato era colorido, os túneis de cada equipe de pesquisadores haviam alcançado apenas pequenas partes de todo o artefato, uma parte azul de um lado e uma vermelha do outro, sendo presunçosos em inferir que o objeto era de uma ou outra cor.

2. Deu Branco.
Pesquisadores dos dois grupos aceitam analisar o artefato nas condições e local que o outro grupo observou, constatando que a observação de seus rivais também era correta. Ao analisar novamente cada um em seu próprio túnel mas com as ferramentas do outro grupo, tem a mesma conclusão que seus oponentes, concluindo que a iluminação diferente é que causou toda essa confusão de cores e o objeto era simplesmente branco, mas, na presença de certos tipos de iluminação poderia tornar-se azul ou vermelho, como eles já sabiam, mas não entendiam.

“Mas nem todas as coisas possuem sépalas e pétalas”, a vida me ensinou assim. Há uma terceira possibilidade que particularmente me parece ser a mais provável e promissora, tem mais cara de “sociedade humana”...

3. Os dois grupos não conseguem se entender de maneira alguma. O mundo está dividido entre azul e vermelho, não há meio termo. Ou um ou outro, ou um ou morto. As pessoas estariam dispostas a morrer e principalmente a matar pela verdade, por sua própria “verdade”, mesmo sem saber se esta era realmente verdade. Cientistas dos dois grupos começaram a aparecer mortos, pronto, foi suficiente pra que radicais armados tomassem as ruas, se matassem aos montes. Seu sangue nas calçadas era sempre vermelho, não azul. Violência, saques, governos de todo mundo declaram que precisam de ajuda, mas, só encontram apoio de governos das quais as lideranças são da mesma cor, azul ou vermelho. Acordos econômicos são desfeitos, faltam suprimentos, água. Mas sobra sangue, sempre vermelho, correndo nos esgotos, independente da cor que seu cadáver está pintado, seja azul ou vermelho. Guerras. Peregrinações ao artefato, validação de sua fé e mais extremismo ainda. Militantes morrem inexplicavelmente. Milhares, milhões perdem a vida. Quem matou os cientistas e tantas pessoas? A guerra continua.

Quem sabe o artefato é radioativo, tóxico, algo assim. Muita exposição e já era, morte em alguns dias. Faz sentido, o que tornaria toda essa guerra inútil. Mas as pessoas sempre querem culpar alguém, querem ter uma razão pra existir, precisam de uma razão para existir, não para lutar. Seria hilário se não sobrasse nenhum humano na face da terra pra terminar a pesquisa e jamais se chegasse à conclusão sobre a cor do objeto, seja ela qual for...


A ciência tenta modelar o universo com suas teorias. Nesses modelos, levar em conta uma intervenção divina realmente não faria sentido. Omitir Deus em modelagens científicas é bastante lógico e aceitável, mas nem por isso Deus “precisa” deixar de existir. Quando se diz que toda matéria que existe estava concentrada em algo do tamanho da cabeça de um alfinete e houve uma grande explosão e se expandiu, dando origem a tudo, sinceramente não consigo ver problema algum em essa teoria coexistir com “no princípio criou Deus os céus e a terra”, sendo o Big Bang uma modelagem científica da ação Divina. Por que tem que ser um OU outro? A Bíblia não fala que as coisas NÃO estavam concentradas assim como uma grande explosão não implica logicamente na não existência de um Deus que a coordenasse. Mas, ao que me parece, as pessoas não tem nenhum interesse em debater com bom senso para que se chegue a conclusões, querem apenas que o ponto de vista que defendem seja tido como verdadeiro.

sábado, 13 de agosto de 2011

Quem sou eu...


Quem você é? Quem você está?
Assim como há uma sutil diferença entre clima e tempo,
Há diferença entre ser e estar.

O clima, como bem sabe o Google é um padrão acerca de diversos acontecimentos e estados atmosféricos de um certo lugar ou mais precisamente, a descrição estatística de quantidades relevantes de mudanças do tempo meteorológico num período de tempo, que vai de meses a milhões de anos. Já o tempo é simplesmente como está num dado instante as condições atmosféricas de certo local. Vendo de maneira direta, o clima é o tempo mais provável para certa região enquanto o tempo é condição climática instantânea.

De maneira muito semelhante, “quem você é” é um padrão médio esperado dos comportamentos que tens assumido, depende de “como você tem estado” num dado período de observação.

Conceituando desse modo, é aceitável entender que é possível mudar algo que se deseje em si mesmo, apenas deixando de estar aquilo que se pretende mudar. Tenha cuidado, portanto, de como está, pois isso é exatamente o que compõe aquilo que você é...

Ou não...

domingo, 7 de agosto de 2011

Não toque no meu pinto!


Essa semana, vi algo que a muito não via, peguei em algo que a muito não pegava: um pinto. Bom, ao que tudo indica pinto não é o nome mais correto para designar a “infância” das galinhas (ou galos, engraçado que galinha é uma das poucas espécies cujo nome da fêmea caracteriza os dois sexos, quando se diz que se come galinha, pode-se muito bem estar se referindo a um galo, por exemplo) parece que o mais correto mesmo seria pintainho, mas, aqui usarei o termo “pinto” para designar as galinhas filhotes.

Lembro que antes dessa era digital, antes que houvesse locadoras nas quais era possível passar a tarde inteira jogando super Nintendo e ainda lanchar com incríveis 75 centavos (ta, peguei pesado), as crianças tinham que procurar formas alternativas de brincar e uma dessas formas, pelo menos que eu recorria, eram jogos com galinhas. É cara, você leu correto, brincar com galinhas. Pois é, enquanto uns viajam até a Florida para ver um show de golfinhos no Seeworld, eu brincava com galinhas no quintal da minha avó.

Minhas história com as galinhas começa por volta dos cinco anos de idade, não lembro bem e seria até estranho lembrar com exatidão. Minha mãe comprou dois pintos, um pra mim e outro para uma prima minha que cresceu junto comigo. Eu era bem cuidadoso, dava água gelada, ração, tratava os dois com muito amor, talvez pra compensar a falta de zelo que minha prima tinha. Eu os carregava pra todo lugar dentro de uma caixa de sapato toda furadinha para que não ficasse muito quente e circulasse ar. Os dois pintos eram idênticos, mas mesmo assim eu achava que o meu era um galo e minha prima achava que o dela era uma galinha.

Os dias passaram até que e um dos pintos acabou morrendo ao cair dentro de uma bacia com água. TRÁGICO! Bom, como eu cuidava bem do meu, entendi claramente que era o da minha prima que veio a óbito (além disso, tinha sido minha mãe que tinha comprado, não seria justo que o meu morresse). Lá fui eu dar a notícia a minha prima. Ela não chorou muito. Realizamos o enterro do pinto lá no quintal de vovó mesmo e depois fomos brincar (como se isso já não tivesse sido uma brincadeira).

Aí meu pinto foi crescendo, crescendo... E se tornou um galo. Acho que se ele se tornasse uma galinha eu teria morrido de desgosto. Nem quero imaginar o impacto que isso causaria na formação do meu caráter. Perguntar-me-ia incansavelmente onde haveria falhado na educação daquele pequeno pinto. Mas ele se tornou um grande galo e dos valentes, tanto é que fiz umas viagens e quando voltei, ele não me reconhecia, queria me bicar, queria destruir o universo. Tive que parar de cuidar dele, ele era violento demais. Tempos depois ele morreu misteriosamente (acho que tem alguma relação com o fato dele atacar meus primos menores diariamente), ninguém falou em enterro... Eu acho que fui enganado e alguma “galinha” que comi por aqueles dias era na verdade meu galo querido. Só lamento por nunca ter lhe dado um nome... Não sei qual seria... Mas seria legal.

Mas, saindo desse flashback, existem muitas formas de se divertir com galinhas. Eu passava a tarde inteira alimentado as galinhas com um saco de milho. Quando falo a tarde toda era realmente a tarde toda porque eu dava de grão em grão. Não porque de grão em grão a galinha enche o papo e sim porque era mais divertido, emocionante, “de grão em grão Davi enche o saco (das galinhas)”. Cada grão que eu jogava era uma correria, uma espécie de “jogar pro frevo” com aves. Puxa, meus olhos brilham ao lembrar, era muito divertido. Cada milho era estrategicamente jogado numa extremidade do galinheiro. A cada vez que eu jogava, as galinhas ficavam bem tensas, esperando o próximo. Era muito humilhante e degradante para elas... Acho que não compensava para elas em termos metabólicos, creio que elas gastavam mais energia correndo do que ganhavam comendo milho. Seria mais vantajoso para elas se apenas ficassem olhando com um ar de reprovação enquanto eu jogava o milho. Quando eu desistisse de brincar e derramasse o pacote todo, aí elas comeriam em paz.

Existia também outra brincadeira, naquela linha de fazer de conta que está se fazendo algo sério. Eu treinava as galinhas para elas aperfeiçoarem o vôo. Forçava-as a praticar exercícios. Acreditava que através de exercícios físicos as galinhas poderiam voar. Essa série especial de treinamento consistia basicamente em jogar as galinhas pra cima o mais alto que eu pudesse e ver no que dava (não acredito que confessei isso). Era legal. Pense bem, não era bom de bola, ainda não tocava violão, ainda não existia Playstation... Jogar galinhas pra cima me parece boa opção nesse contexto... Mas antes que alguém me taxe de malvado, elas não se machucavam, na maioria das vezes davam uma voadinha, nenhuma nunca se feriu, ninguém precisa pensar que eu odeio os animais ou coisa do tipo (não sou muito fã de gatos).

Mas isso é passado, as galinhas são apenas uma raça escravizada e explorada impiedosamente por nós humanos, os laços de amizade que asseguravam a harmonia já não existem mais, pois as crianças não brincam mais com as galinhas, sei que não era o único, mas não sei se não fui o último. Hoje quando vou ao shopping e vejo menininhas de 12 anos de salto alto, maquiadas, sendo cortejadas por menininhos da mesma faixa etária eu me pergunto: Quem perde ou perdeu tempo? Eu perdi tempo sendo criança, andando de bicicleta, indo jogar pedra nos macacos do antigo zoológico da ESAM (hoje UFERSA), tomando banho de chuva, brincando de corrida de tampinha, futebol de botão, jogando bila, brincando de mirim... Ou será que são essas crianças de hoje que estão perdendo a infância tentando ser adultos? Tentando parecer com seus ídolos idiotas. Penso que criança deve ser criança, enquanto pode, e adulto deve ser adulto, enquanto deve. Tudo tem seu tempo, seu lugar. Acho que muitas coisas não são como deveriam, pois tentaram melhorar quando já eram inocentemente perfeitas...

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Tempo perdido


Incrível como essa música me toca, engraçado que enquanto escuto, por vezes sinto os cabelos do braço e até de barba se arrepiando. Incrível como ela tem som de dor e sofrimento. É o que sub-escuto em cada verso. Não sei em que eles pensavam enquanto escreviam essa música. Sinto acordes de uma angústia tão profunda, presságio de uma grande tristeza irremediável.

Sinto inveja de Renato, Dado e Bonfá por terem escrito essa letra, adoraria ter sido o primeiro a ordenar e pontuar essas palavras desse modo.

Não é por estar se completando data nenhuma que vim aqui lembrar a Legião Urbana e de Renato (pra ver se estava certo fui pesquisar a data do aniversário dele e fiquei feliz ao descobrir que a data é bem próxima a do meu, 4 dias apenas) só acho que certas coisas são dignas de ser lembradas. Longe de querer dizer que Legião precisa de mim pra não ser esquecida, só queria mostrar minha admiração pelo excelente trabalho.

Mas, se a música me toca tanto quanto toca, ela não precisa que eu me estenda no comentário.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Antes que eu durma e esqueça


Lembro do primeiro gol,
Lembro de quando escolhi o time.
Lembro que você escreve uma palavra a toa
E depois escreve outra que rime.

Lembro de quando brincava em casa,
Lembro de quando brincava na rua.
Lembro de tardes ensolaradas,
Lembro de noites sem lua.

Lembro que pisei em tapete vermelho,
Lembro que já andei no esgoto.
Lembro que há quem me ame
E quem queira me ver morto.

Lembro do sol no inverno,
Lembro de chuva no verão.
De algumas coisas eu lembro,
Outras não passam de ilusão.

Lembro que estou deitado,
Estava indo dormir.
Mas essas palavras vieram a minha mente
Eu apenas as deixei sair.


Lembre-se sempre, meu caro,
Na vida, tudo tem um fim.
Espero que lembre dessas palavras
Que tarde da noite foram escritas por mim.

sábado, 2 de julho de 2011

Triste fim de Serafim


Certa vez ouvi uma história muito triste. Mesmo agora sua tristeza chega até mim tão rapidamente quanto uma nuvem escura que tapa o sol. Tão rápido quanto um raio que corta o céu queimando o ar. Tão rápido que logo escrevo com medo de outra vez esquecer as palavras que a contam.

Acho que era sobre um garoto que sonhava em voar, mas não tinha asas. Espera, ele tinha asas sim. Acho que por isso foi chamado Serafim. Diziam as línguas (aquelas que sempre têm algo a dizer) que o menino assim teria nascido, pois sua infértil mãe nunca pedira a nenhum santo que lhe concedesse a graça de ter um filho, sendo, portanto, milagre feito pelo próprio poder dos anjos que acabaram compadecendo-se com a dor daquela pobre mulher.

Quando na infância, Serafim não voava, pois suas asas eram pequenas, com penas delicadas e não tinham o poder de voar, mas, mesmo se tivessem sua sempre cuidadosa mãe não permitiria que seu “anjinho” cometesse tal travessura. Mas ao completar onze anos de idade, um anjo chamado Clavus veio a sua casa e pediu para a mãe de Serafim que não mais proibisse o jovem de voar. Ela, sentindo-se sempre devedora do favor concedido, mesmo com o coração apertado permitiu que seu filho provasse também dos céus. E daquele dia em diante, uma vez por semana, descia Clavus e o ensinava não só a voar, mas também sobre como eram as coisas do céu.

E cresceu serafim e o alto era quase sempre seu destino. Mergulhando em nuvens e caindo junto com a chuva. Voar se tornara tão natural quanto seu respirar, o bater do coração, o bater de suas asas. E cada dia mais, voava mais e mais voava, sempre querendo ir alto, mais e mais alto. A terra já não era sua primeira casa. E disse Clavus que não mais viria, já lhe havia ensinado tudo que um anjo poderia ensinar a um ser da terra(outro anjo).

- Vá e procure outros mestres nos céus que te serão mais proveitosos que eu. Eis que seus mestres são todos aqueles que de tanto amar a liberdade tem asas ao invés de mãos, para não se agarrar a algo nem levar nada precioso consigo, pois a maior preciosidade já possuem: o dom dos céus.

Serafim procurou novos mestres e com eles voou:
Voou com pardais e aprendeu a comer cada dia em um lugar.
Voou com canários e com eles aprendeu a cantar.
Voou com abutres e descobriu que não se deve voar com todas as aves
Voou com as águias e com estas aprendeu a voas acima das tempestades, enxergar muito além do horizonte.

E pousava Serafim todos os dias em sua casa para passar alguns instantes com sua mãe. Era a única pessoa com quem ele ainda mantinha contato. Serafim já não via graça nos humanos. Não compreendia a angústia que sentiam em seus corações, preocupando-se com coisas TÃO PEQUENAS e deixando de lado tantas dádivas que a natureza oferecia-lhes. Pobres, tolos mesquinhos.

“Nunca provarão do céu pois seu coração lhes é pesado.”

Serafim só se arrependeu de suas palavras no instante em que a conheceu. Em um de seus vôos acabou avistando algo que brilhava tanto quanto o sol, não, brilhava mais. Uma donzela de pele tão clara que se podia ver os caminhos que o sangue trilhava dentro de seu corpo. Seus cabelos da cor do pôr do sol passavam o poder e encanto do fogo. Seus olhos azuis como águas rasas, claras, límpidas, mais preciosos que o topázio azurra, seu nome era Alla.

E quando levantava vôo pela manhã, Serafim já se via pousando ao lado de Alla, para os longos passeios que faziam de mãos dadas pelos campos. Logo nasceu nele um amor por esta e desta por ele. Ele a amava como mulher e ela o amava como amigo. Clavus tentou o alertar que a relação seria perigosa, que escolhas deveriam ser tomadas e que talvez Serafim não tivesse discernimento suficiente para isso.

Mesmo com toda a atenção que recebia do seu “amigo”, Alla não conseguia sentir outra coisa, embora por vezes desejasse isso e Serafim acabou percebendo que não era correspondido.

“Por que ela não me ama, Clavus?”

Clavus sabiamente respondeu:
“Serafim, certas coisas não nos cabe saber e é melhor que não as conheçamos. O dito que fala que os anjos não têm sexo é verdadeiro. Mas a sua verdade não possui significado biológico e sim afetivo, pois um humano é incapaz de amar um anjo, mesmo que seja cruelmente possível um anjo amar um humano. Os deuses consideram que deram aos anjos de presente as asas e aos humanos... Deus aos humanos o livre arbítrio, que também temos, mas só podemos exercê-lo uma vez na condição de anjos, nos tornando humanos... ”

Serafim haveria de escolher entre a “liberdade” e imortalidade dos anjos ou uma feliz e breve vida, envelhecer e morrer junto com sua amada. A escolha era difícil. Ele procurou o mais alto penhasco e se assentou sobre ele, pensando no que fazer. De lá via os humanos e suas vidas e seus problemas TÃO PEQUENOS, simpatizando cada vez mais com cada um. Enquanto pensava, viu muitas vezes o sol nascer e se pôr, viu por vezes demais. O tempo passou, ele pensou e decidiu. Serei humano.

Desceu a terra e pediu aos deuses:
“Deixem-me, ó deuses, ser homem, sentir o doce dos seus prazeres e do amargo de suas dores.”
Uma leve chuva começou a cair, banhando Serafim, levando a cada gota parte das suas asas que se desmanchavam como neve numa manhã ensolarada.

Ao se sentir mais Homem do que nunca, Serafim correu até a casa da amada. Ora, ele se cansou e demorou mais do que de costume, chegou até a machucar os pés em alguns espinhos, mas ele apenas riu ao sentir aquela dor, pois significava que não mais era anjo, podia ser amado e não apenas amar. Já podia imaginar a vida simples que levariam juntos, sem luxo mas com conforto, que criariam os filhos com todo amor. Imaginou como seria sentir o amor e o corpo quente de uma mulher, da mulher que ele amava.

Mas ao chegar, a casa estava vazia. Esperou um pouco. Esperou bastante e ela não veio. Cansado de esperar perguntou a uma vizinha que acabou lhe contando que a moça havia ficado muito abatida com sua ausência. A família com medo de que ele não voltasse mais e acabou insistindo e convencendo-a a casar-se com um antigo pretendente. Que duro golpe a vida lhe dera. Ter de escolher entre um amor ou suas asas e acabar ficando sem os dois.

Ele deixou de lado sua liberdade para isso? Sua imortalidade, suas asas, seu céu azul. Tudo seria trocado por ela. E foi. Mas ela não o esperou tanto tempo. Por que havia pensado tanto mesmo quando já sabia a resposta que queria responder. Nunca soube do seu sacrifício. Nunca o amou. Com tanta dor no peito, Serafim buscou o mais alto precipício que podia alcançar sem suas asas e de lá se atirou.

Teria Serafim apenas morrido como o simples mortal que se tornara? Ou teriam os deuses se compadecido da dor do pobre anjo e lhe devolveram suas asas? O que há de certo é que Serafim morreu...

De amor...