
Não sei de onde tiraram a idéia de que ciência e religião são coisas antagônicas. Lembrei. Teve um “pesquisador” que realizou um levantamento no meio acadêmico norte americano e constatou que aproximadamente 65% dos acadêmicos não criam em Deus. Essa pesquisa foi, inclusive, refeita tempos depois por outro “pesquisador” e o resultado foi muito próximo desse valor. Com esse resultado ele esperava que a população concluísse que quem é “inteligente” não acredita nessa “baboseira” de Deus. Mas essa pesquisa não foi muito bem vista nem aceita no meio acadêmico (até por muitos ateus), pois a pergunta não apenas perguntava sobre a crença em Deus e sim na crença em um Deus acessível intelectualmente através de preces e que este Deus respondia-as. Ou seja, a pergunta era pouco generalista. Podia ser que aqueles que responderam não para essa pergunta acreditassem em Deus mas talvez não nos moldes que a pergunta o descrevia ou simplesmente não tinham uma definição para Deus.
Mas indo ao que gostaria de chegar, discordo dessa rivalização entre ciência e religião. Imagino a seguinte situação. Dois grupos de estudiosos sabem da localização de um artefato enterrado e começam a escavar para alcançá-lo. Eles prosseguem cada um a seu modo, com suas teorias e crenças e enfim chegam ao artefato, cada um por seu túnel, chegando um de um lado e o outro do outro. Para sua surpresa, os dois grupos descobrem que não é possível, em curto prazo, retirar esse objeto e expô-lo a luz do sol para descobrir sua cor. Daí eles decidem levar lanternas e iluminá-lo ainda longe da superfície e sem movê-lo. Um grupo conclui que ele é azul e o outro que ele é vermelho. Ou seja, existem duas teorias que tentam explicar a verdade:
Teoria 1: O objeto é azul e não vermelho.
Teoria 2: O objeto é vermelho, ou seja, não é azul.
Cada grupo passa a defender ferozmente sua ótica com argumentos convincentes e bem fundamentados, acha absurda a opinião dos “tolos” do outro grupo. A sociedade fica chocada e dividida. A tendência é que a parcela que dê ouvidos ao grupo que prega que o artefato é azul comece a pensar e também defender que o objeto seja azul, enquanto que a parcela que debate na roda dos pesquisadores que acreditam que o artefato é vermelho pouco a pouco é convencida de que ele de fato é vermelho.
Desde quando comecei a escrever esse texto já se passaram alguns dias e freqüentemente me pergunto se o objeto é azul ou vermelho. Azul ou vermelho? Vermelho? Azul? Por que sempre queremos que as coisas sejam de um jeito OU de outro? Azuis ou Vermelhas? Mas para a cor do artefato, apresentarei a seguir três possibilidades as quais nenhuma revela um objeto vermelho OU azul:
1. Vermelho e Azul e Verde
Anos de debates e discussões exaltadas chegam ao fim quando finalmente se pôde desenterrar completamente o artefato e descobrir que ele é tanto azul quanto vervelho, além de verde. O artefato era colorido, os túneis de cada equipe de pesquisadores haviam alcançado apenas pequenas partes de todo o artefato, uma parte azul de um lado e uma vermelha do outro, sendo presunçosos em inferir que o objeto era de uma ou outra cor.
2. Deu Branco.
Pesquisadores dos dois grupos aceitam analisar o artefato nas condições e local que o outro grupo observou, constatando que a observação de seus rivais também era correta. Ao analisar novamente cada um em seu próprio túnel mas com as ferramentas do outro grupo, tem a mesma conclusão que seus oponentes, concluindo que a iluminação diferente é que causou toda essa confusão de cores e o objeto era simplesmente branco, mas, na presença de certos tipos de iluminação poderia tornar-se azul ou vermelho, como eles já sabiam, mas não entendiam.
“Mas nem todas as coisas possuem sépalas e pétalas”, a vida me ensinou assim. Há uma terceira possibilidade que particularmente me parece ser a mais provável e promissora, tem mais cara de “sociedade humana”...
3. Os dois grupos não conseguem se entender de maneira alguma. O mundo está dividido entre azul e vermelho, não há meio termo. Ou um ou outro, ou um ou morto. As pessoas estariam dispostas a morrer e principalmente a matar pela verdade, por sua própria “verdade”, mesmo sem saber se esta era realmente verdade. Cientistas dos dois grupos começaram a aparecer mortos, pronto, foi suficiente pra que radicais armados tomassem as ruas, se matassem aos montes. Seu sangue nas calçadas era sempre vermelho, não azul. Violência, saques, governos de todo mundo declaram que precisam de ajuda, mas, só encontram apoio de governos das quais as lideranças são da mesma cor, azul ou vermelho. Acordos econômicos são desfeitos, faltam suprimentos, água. Mas sobra sangue, sempre vermelho, correndo nos esgotos, independente da cor que seu cadáver está pintado, seja azul ou vermelho. Guerras. Peregrinações ao artefato, validação de sua fé e mais extremismo ainda. Militantes morrem inexplicavelmente. Milhares, milhões perdem a vida. Quem matou os cientistas e tantas pessoas? A guerra continua.
Quem sabe o artefato é radioativo, tóxico, algo assim. Muita exposição e já era, morte em alguns dias. Faz sentido, o que tornaria toda essa guerra inútil. Mas as pessoas sempre querem culpar alguém, querem ter uma razão pra existir, precisam de uma razão para existir, não para lutar. Seria hilário se não sobrasse nenhum humano na face da terra pra terminar a pesquisa e jamais se chegasse à conclusão sobre a cor do objeto, seja ela qual for...
A ciência tenta modelar o universo com suas teorias. Nesses modelos, levar em conta uma intervenção divina realmente não faria sentido. Omitir Deus em modelagens científicas é bastante lógico e aceitável, mas nem por isso Deus “precisa” deixar de existir. Quando se diz que toda matéria que existe estava concentrada em algo do tamanho da cabeça de um alfinete e houve uma grande explosão e se expandiu, dando origem a tudo, sinceramente não consigo ver problema algum em essa teoria coexistir com “no princípio criou Deus os céus e a terra”, sendo o Big Bang uma modelagem científica da ação Divina. Por que tem que ser um OU outro? A Bíblia não fala que as coisas NÃO estavam concentradas assim como uma grande explosão não implica logicamente na não existência de um Deus que a coordenasse. Mas, ao que me parece, as pessoas não tem nenhum interesse em debater com bom senso para que se chegue a conclusões, querem apenas que o ponto de vista que defendem seja tido como verdadeiro.











