sábado, 5 de novembro de 2011

Ciência ou Religião?


Não sei de onde tiraram a idéia de que ciência e religião são coisas antagônicas. Lembrei. Teve um “pesquisador” que realizou um levantamento no meio acadêmico norte americano e constatou que aproximadamente 65% dos acadêmicos não criam em Deus. Essa pesquisa foi, inclusive, refeita tempos depois por outro “pesquisador” e o resultado foi muito próximo desse valor. Com esse resultado ele esperava que a população concluísse que quem é “inteligente” não acredita nessa “baboseira” de Deus. Mas essa pesquisa não foi muito bem vista nem aceita no meio acadêmico (até por muitos ateus), pois a pergunta não apenas perguntava sobre a crença em Deus e sim na crença em um Deus acessível intelectualmente através de preces e que este Deus respondia-as. Ou seja, a pergunta era pouco generalista. Podia ser que aqueles que responderam não para essa pergunta acreditassem em Deus mas talvez não nos moldes que a pergunta o descrevia ou simplesmente não tinham uma definição para Deus.

Mas indo ao que gostaria de chegar, discordo dessa rivalização entre ciência e religião. Imagino a seguinte situação. Dois grupos de estudiosos sabem da localização de um artefato enterrado e começam a escavar para alcançá-lo. Eles prosseguem cada um a seu modo, com suas teorias e crenças e enfim chegam ao artefato, cada um por seu túnel, chegando um de um lado e o outro do outro. Para sua surpresa, os dois grupos descobrem que não é possível, em curto prazo, retirar esse objeto e expô-lo a luz do sol para descobrir sua cor. Daí eles decidem levar lanternas e iluminá-lo ainda longe da superfície e sem movê-lo. Um grupo conclui que ele é azul e o outro que ele é vermelho. Ou seja, existem duas teorias que tentam explicar a verdade:
Teoria 1: O objeto é azul e não vermelho.
Teoria 2: O objeto é vermelho, ou seja, não é azul.

Cada grupo passa a defender ferozmente sua ótica com argumentos convincentes e bem fundamentados, acha absurda a opinião dos “tolos” do outro grupo. A sociedade fica chocada e dividida. A tendência é que a parcela que dê ouvidos ao grupo que prega que o artefato é azul comece a pensar e também defender que o objeto seja azul, enquanto que a parcela que debate na roda dos pesquisadores que acreditam que o artefato é vermelho pouco a pouco é convencida de que ele de fato é vermelho.

Desde quando comecei a escrever esse texto já se passaram alguns dias e freqüentemente me pergunto se o objeto é azul ou vermelho. Azul ou vermelho? Vermelho? Azul? Por que sempre queremos que as coisas sejam de um jeito OU de outro? Azuis ou Vermelhas? Mas para a cor do artefato, apresentarei a seguir três possibilidades as quais nenhuma revela um objeto vermelho OU azul:

1. Vermelho e Azul e Verde
Anos de debates e discussões exaltadas chegam ao fim quando finalmente se pôde desenterrar completamente o artefato e descobrir que ele é tanto azul quanto vervelho, além de verde. O artefato era colorido, os túneis de cada equipe de pesquisadores haviam alcançado apenas pequenas partes de todo o artefato, uma parte azul de um lado e uma vermelha do outro, sendo presunçosos em inferir que o objeto era de uma ou outra cor.

2. Deu Branco.
Pesquisadores dos dois grupos aceitam analisar o artefato nas condições e local que o outro grupo observou, constatando que a observação de seus rivais também era correta. Ao analisar novamente cada um em seu próprio túnel mas com as ferramentas do outro grupo, tem a mesma conclusão que seus oponentes, concluindo que a iluminação diferente é que causou toda essa confusão de cores e o objeto era simplesmente branco, mas, na presença de certos tipos de iluminação poderia tornar-se azul ou vermelho, como eles já sabiam, mas não entendiam.

“Mas nem todas as coisas possuem sépalas e pétalas”, a vida me ensinou assim. Há uma terceira possibilidade que particularmente me parece ser a mais provável e promissora, tem mais cara de “sociedade humana”...

3. Os dois grupos não conseguem se entender de maneira alguma. O mundo está dividido entre azul e vermelho, não há meio termo. Ou um ou outro, ou um ou morto. As pessoas estariam dispostas a morrer e principalmente a matar pela verdade, por sua própria “verdade”, mesmo sem saber se esta era realmente verdade. Cientistas dos dois grupos começaram a aparecer mortos, pronto, foi suficiente pra que radicais armados tomassem as ruas, se matassem aos montes. Seu sangue nas calçadas era sempre vermelho, não azul. Violência, saques, governos de todo mundo declaram que precisam de ajuda, mas, só encontram apoio de governos das quais as lideranças são da mesma cor, azul ou vermelho. Acordos econômicos são desfeitos, faltam suprimentos, água. Mas sobra sangue, sempre vermelho, correndo nos esgotos, independente da cor que seu cadáver está pintado, seja azul ou vermelho. Guerras. Peregrinações ao artefato, validação de sua fé e mais extremismo ainda. Militantes morrem inexplicavelmente. Milhares, milhões perdem a vida. Quem matou os cientistas e tantas pessoas? A guerra continua.

Quem sabe o artefato é radioativo, tóxico, algo assim. Muita exposição e já era, morte em alguns dias. Faz sentido, o que tornaria toda essa guerra inútil. Mas as pessoas sempre querem culpar alguém, querem ter uma razão pra existir, precisam de uma razão para existir, não para lutar. Seria hilário se não sobrasse nenhum humano na face da terra pra terminar a pesquisa e jamais se chegasse à conclusão sobre a cor do objeto, seja ela qual for...


A ciência tenta modelar o universo com suas teorias. Nesses modelos, levar em conta uma intervenção divina realmente não faria sentido. Omitir Deus em modelagens científicas é bastante lógico e aceitável, mas nem por isso Deus “precisa” deixar de existir. Quando se diz que toda matéria que existe estava concentrada em algo do tamanho da cabeça de um alfinete e houve uma grande explosão e se expandiu, dando origem a tudo, sinceramente não consigo ver problema algum em essa teoria coexistir com “no princípio criou Deus os céus e a terra”, sendo o Big Bang uma modelagem científica da ação Divina. Por que tem que ser um OU outro? A Bíblia não fala que as coisas NÃO estavam concentradas assim como uma grande explosão não implica logicamente na não existência de um Deus que a coordenasse. Mas, ao que me parece, as pessoas não tem nenhum interesse em debater com bom senso para que se chegue a conclusões, querem apenas que o ponto de vista que defendem seja tido como verdadeiro.

sábado, 13 de agosto de 2011

Quem sou eu...


Quem você é? Quem você está?
Assim como há uma sutil diferença entre clima e tempo,
Há diferença entre ser e estar.

O clima, como bem sabe o Google é um padrão acerca de diversos acontecimentos e estados atmosféricos de um certo lugar ou mais precisamente, a descrição estatística de quantidades relevantes de mudanças do tempo meteorológico num período de tempo, que vai de meses a milhões de anos. Já o tempo é simplesmente como está num dado instante as condições atmosféricas de certo local. Vendo de maneira direta, o clima é o tempo mais provável para certa região enquanto o tempo é condição climática instantânea.

De maneira muito semelhante, “quem você é” é um padrão médio esperado dos comportamentos que tens assumido, depende de “como você tem estado” num dado período de observação.

Conceituando desse modo, é aceitável entender que é possível mudar algo que se deseje em si mesmo, apenas deixando de estar aquilo que se pretende mudar. Tenha cuidado, portanto, de como está, pois isso é exatamente o que compõe aquilo que você é...

Ou não...

domingo, 7 de agosto de 2011

Não toque no meu pinto!


Essa semana, vi algo que a muito não via, peguei em algo que a muito não pegava: um pinto. Bom, ao que tudo indica pinto não é o nome mais correto para designar a “infância” das galinhas (ou galos, engraçado que galinha é uma das poucas espécies cujo nome da fêmea caracteriza os dois sexos, quando se diz que se come galinha, pode-se muito bem estar se referindo a um galo, por exemplo) parece que o mais correto mesmo seria pintainho, mas, aqui usarei o termo “pinto” para designar as galinhas filhotes.

Lembro que antes dessa era digital, antes que houvesse locadoras nas quais era possível passar a tarde inteira jogando super Nintendo e ainda lanchar com incríveis 75 centavos (ta, peguei pesado), as crianças tinham que procurar formas alternativas de brincar e uma dessas formas, pelo menos que eu recorria, eram jogos com galinhas. É cara, você leu correto, brincar com galinhas. Pois é, enquanto uns viajam até a Florida para ver um show de golfinhos no Seeworld, eu brincava com galinhas no quintal da minha avó.

Minhas história com as galinhas começa por volta dos cinco anos de idade, não lembro bem e seria até estranho lembrar com exatidão. Minha mãe comprou dois pintos, um pra mim e outro para uma prima minha que cresceu junto comigo. Eu era bem cuidadoso, dava água gelada, ração, tratava os dois com muito amor, talvez pra compensar a falta de zelo que minha prima tinha. Eu os carregava pra todo lugar dentro de uma caixa de sapato toda furadinha para que não ficasse muito quente e circulasse ar. Os dois pintos eram idênticos, mas mesmo assim eu achava que o meu era um galo e minha prima achava que o dela era uma galinha.

Os dias passaram até que e um dos pintos acabou morrendo ao cair dentro de uma bacia com água. TRÁGICO! Bom, como eu cuidava bem do meu, entendi claramente que era o da minha prima que veio a óbito (além disso, tinha sido minha mãe que tinha comprado, não seria justo que o meu morresse). Lá fui eu dar a notícia a minha prima. Ela não chorou muito. Realizamos o enterro do pinto lá no quintal de vovó mesmo e depois fomos brincar (como se isso já não tivesse sido uma brincadeira).

Aí meu pinto foi crescendo, crescendo... E se tornou um galo. Acho que se ele se tornasse uma galinha eu teria morrido de desgosto. Nem quero imaginar o impacto que isso causaria na formação do meu caráter. Perguntar-me-ia incansavelmente onde haveria falhado na educação daquele pequeno pinto. Mas ele se tornou um grande galo e dos valentes, tanto é que fiz umas viagens e quando voltei, ele não me reconhecia, queria me bicar, queria destruir o universo. Tive que parar de cuidar dele, ele era violento demais. Tempos depois ele morreu misteriosamente (acho que tem alguma relação com o fato dele atacar meus primos menores diariamente), ninguém falou em enterro... Eu acho que fui enganado e alguma “galinha” que comi por aqueles dias era na verdade meu galo querido. Só lamento por nunca ter lhe dado um nome... Não sei qual seria... Mas seria legal.

Mas, saindo desse flashback, existem muitas formas de se divertir com galinhas. Eu passava a tarde inteira alimentado as galinhas com um saco de milho. Quando falo a tarde toda era realmente a tarde toda porque eu dava de grão em grão. Não porque de grão em grão a galinha enche o papo e sim porque era mais divertido, emocionante, “de grão em grão Davi enche o saco (das galinhas)”. Cada grão que eu jogava era uma correria, uma espécie de “jogar pro frevo” com aves. Puxa, meus olhos brilham ao lembrar, era muito divertido. Cada milho era estrategicamente jogado numa extremidade do galinheiro. A cada vez que eu jogava, as galinhas ficavam bem tensas, esperando o próximo. Era muito humilhante e degradante para elas... Acho que não compensava para elas em termos metabólicos, creio que elas gastavam mais energia correndo do que ganhavam comendo milho. Seria mais vantajoso para elas se apenas ficassem olhando com um ar de reprovação enquanto eu jogava o milho. Quando eu desistisse de brincar e derramasse o pacote todo, aí elas comeriam em paz.

Existia também outra brincadeira, naquela linha de fazer de conta que está se fazendo algo sério. Eu treinava as galinhas para elas aperfeiçoarem o vôo. Forçava-as a praticar exercícios. Acreditava que através de exercícios físicos as galinhas poderiam voar. Essa série especial de treinamento consistia basicamente em jogar as galinhas pra cima o mais alto que eu pudesse e ver no que dava (não acredito que confessei isso). Era legal. Pense bem, não era bom de bola, ainda não tocava violão, ainda não existia Playstation... Jogar galinhas pra cima me parece boa opção nesse contexto... Mas antes que alguém me taxe de malvado, elas não se machucavam, na maioria das vezes davam uma voadinha, nenhuma nunca se feriu, ninguém precisa pensar que eu odeio os animais ou coisa do tipo (não sou muito fã de gatos).

Mas isso é passado, as galinhas são apenas uma raça escravizada e explorada impiedosamente por nós humanos, os laços de amizade que asseguravam a harmonia já não existem mais, pois as crianças não brincam mais com as galinhas, sei que não era o único, mas não sei se não fui o último. Hoje quando vou ao shopping e vejo menininhas de 12 anos de salto alto, maquiadas, sendo cortejadas por menininhos da mesma faixa etária eu me pergunto: Quem perde ou perdeu tempo? Eu perdi tempo sendo criança, andando de bicicleta, indo jogar pedra nos macacos do antigo zoológico da ESAM (hoje UFERSA), tomando banho de chuva, brincando de corrida de tampinha, futebol de botão, jogando bila, brincando de mirim... Ou será que são essas crianças de hoje que estão perdendo a infância tentando ser adultos? Tentando parecer com seus ídolos idiotas. Penso que criança deve ser criança, enquanto pode, e adulto deve ser adulto, enquanto deve. Tudo tem seu tempo, seu lugar. Acho que muitas coisas não são como deveriam, pois tentaram melhorar quando já eram inocentemente perfeitas...

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Tempo perdido


Incrível como essa música me toca, engraçado que enquanto escuto, por vezes sinto os cabelos do braço e até de barba se arrepiando. Incrível como ela tem som de dor e sofrimento. É o que sub-escuto em cada verso. Não sei em que eles pensavam enquanto escreviam essa música. Sinto acordes de uma angústia tão profunda, presságio de uma grande tristeza irremediável.

Sinto inveja de Renato, Dado e Bonfá por terem escrito essa letra, adoraria ter sido o primeiro a ordenar e pontuar essas palavras desse modo.

Não é por estar se completando data nenhuma que vim aqui lembrar a Legião Urbana e de Renato (pra ver se estava certo fui pesquisar a data do aniversário dele e fiquei feliz ao descobrir que a data é bem próxima a do meu, 4 dias apenas) só acho que certas coisas são dignas de ser lembradas. Longe de querer dizer que Legião precisa de mim pra não ser esquecida, só queria mostrar minha admiração pelo excelente trabalho.

Mas, se a música me toca tanto quanto toca, ela não precisa que eu me estenda no comentário.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Antes que eu durma e esqueça


Lembro do primeiro gol,
Lembro de quando escolhi o time.
Lembro que você escreve uma palavra a toa
E depois escreve outra que rime.

Lembro de quando brincava em casa,
Lembro de quando brincava na rua.
Lembro de tardes ensolaradas,
Lembro de noites sem lua.

Lembro que pisei em tapete vermelho,
Lembro que já andei no esgoto.
Lembro que há quem me ame
E quem queira me ver morto.

Lembro do sol no inverno,
Lembro de chuva no verão.
De algumas coisas eu lembro,
Outras não passam de ilusão.

Lembro que estou deitado,
Estava indo dormir.
Mas essas palavras vieram a minha mente
Eu apenas as deixei sair.


Lembre-se sempre, meu caro,
Na vida, tudo tem um fim.
Espero que lembre dessas palavras
Que tarde da noite foram escritas por mim.

sábado, 2 de julho de 2011

Triste fim de Serafim


Certa vez ouvi uma história muito triste. Mesmo agora sua tristeza chega até mim tão rapidamente quanto uma nuvem escura que tapa o sol. Tão rápido quanto um raio que corta o céu queimando o ar. Tão rápido que logo escrevo com medo de outra vez esquecer as palavras que a contam.

Acho que era sobre um garoto que sonhava em voar, mas não tinha asas. Espera, ele tinha asas sim. Acho que por isso foi chamado Serafim. Diziam as línguas (aquelas que sempre têm algo a dizer) que o menino assim teria nascido, pois sua infértil mãe nunca pedira a nenhum santo que lhe concedesse a graça de ter um filho, sendo, portanto, milagre feito pelo próprio poder dos anjos que acabaram compadecendo-se com a dor daquela pobre mulher.

Quando na infância, Serafim não voava, pois suas asas eram pequenas, com penas delicadas e não tinham o poder de voar, mas, mesmo se tivessem sua sempre cuidadosa mãe não permitiria que seu “anjinho” cometesse tal travessura. Mas ao completar onze anos de idade, um anjo chamado Clavus veio a sua casa e pediu para a mãe de Serafim que não mais proibisse o jovem de voar. Ela, sentindo-se sempre devedora do favor concedido, mesmo com o coração apertado permitiu que seu filho provasse também dos céus. E daquele dia em diante, uma vez por semana, descia Clavus e o ensinava não só a voar, mas também sobre como eram as coisas do céu.

E cresceu serafim e o alto era quase sempre seu destino. Mergulhando em nuvens e caindo junto com a chuva. Voar se tornara tão natural quanto seu respirar, o bater do coração, o bater de suas asas. E cada dia mais, voava mais e mais voava, sempre querendo ir alto, mais e mais alto. A terra já não era sua primeira casa. E disse Clavus que não mais viria, já lhe havia ensinado tudo que um anjo poderia ensinar a um ser da terra(outro anjo).

- Vá e procure outros mestres nos céus que te serão mais proveitosos que eu. Eis que seus mestres são todos aqueles que de tanto amar a liberdade tem asas ao invés de mãos, para não se agarrar a algo nem levar nada precioso consigo, pois a maior preciosidade já possuem: o dom dos céus.

Serafim procurou novos mestres e com eles voou:
Voou com pardais e aprendeu a comer cada dia em um lugar.
Voou com canários e com eles aprendeu a cantar.
Voou com abutres e descobriu que não se deve voar com todas as aves
Voou com as águias e com estas aprendeu a voas acima das tempestades, enxergar muito além do horizonte.

E pousava Serafim todos os dias em sua casa para passar alguns instantes com sua mãe. Era a única pessoa com quem ele ainda mantinha contato. Serafim já não via graça nos humanos. Não compreendia a angústia que sentiam em seus corações, preocupando-se com coisas TÃO PEQUENAS e deixando de lado tantas dádivas que a natureza oferecia-lhes. Pobres, tolos mesquinhos.

“Nunca provarão do céu pois seu coração lhes é pesado.”

Serafim só se arrependeu de suas palavras no instante em que a conheceu. Em um de seus vôos acabou avistando algo que brilhava tanto quanto o sol, não, brilhava mais. Uma donzela de pele tão clara que se podia ver os caminhos que o sangue trilhava dentro de seu corpo. Seus cabelos da cor do pôr do sol passavam o poder e encanto do fogo. Seus olhos azuis como águas rasas, claras, límpidas, mais preciosos que o topázio azurra, seu nome era Alla.

E quando levantava vôo pela manhã, Serafim já se via pousando ao lado de Alla, para os longos passeios que faziam de mãos dadas pelos campos. Logo nasceu nele um amor por esta e desta por ele. Ele a amava como mulher e ela o amava como amigo. Clavus tentou o alertar que a relação seria perigosa, que escolhas deveriam ser tomadas e que talvez Serafim não tivesse discernimento suficiente para isso.

Mesmo com toda a atenção que recebia do seu “amigo”, Alla não conseguia sentir outra coisa, embora por vezes desejasse isso e Serafim acabou percebendo que não era correspondido.

“Por que ela não me ama, Clavus?”

Clavus sabiamente respondeu:
“Serafim, certas coisas não nos cabe saber e é melhor que não as conheçamos. O dito que fala que os anjos não têm sexo é verdadeiro. Mas a sua verdade não possui significado biológico e sim afetivo, pois um humano é incapaz de amar um anjo, mesmo que seja cruelmente possível um anjo amar um humano. Os deuses consideram que deram aos anjos de presente as asas e aos humanos... Deus aos humanos o livre arbítrio, que também temos, mas só podemos exercê-lo uma vez na condição de anjos, nos tornando humanos... ”

Serafim haveria de escolher entre a “liberdade” e imortalidade dos anjos ou uma feliz e breve vida, envelhecer e morrer junto com sua amada. A escolha era difícil. Ele procurou o mais alto penhasco e se assentou sobre ele, pensando no que fazer. De lá via os humanos e suas vidas e seus problemas TÃO PEQUENOS, simpatizando cada vez mais com cada um. Enquanto pensava, viu muitas vezes o sol nascer e se pôr, viu por vezes demais. O tempo passou, ele pensou e decidiu. Serei humano.

Desceu a terra e pediu aos deuses:
“Deixem-me, ó deuses, ser homem, sentir o doce dos seus prazeres e do amargo de suas dores.”
Uma leve chuva começou a cair, banhando Serafim, levando a cada gota parte das suas asas que se desmanchavam como neve numa manhã ensolarada.

Ao se sentir mais Homem do que nunca, Serafim correu até a casa da amada. Ora, ele se cansou e demorou mais do que de costume, chegou até a machucar os pés em alguns espinhos, mas ele apenas riu ao sentir aquela dor, pois significava que não mais era anjo, podia ser amado e não apenas amar. Já podia imaginar a vida simples que levariam juntos, sem luxo mas com conforto, que criariam os filhos com todo amor. Imaginou como seria sentir o amor e o corpo quente de uma mulher, da mulher que ele amava.

Mas ao chegar, a casa estava vazia. Esperou um pouco. Esperou bastante e ela não veio. Cansado de esperar perguntou a uma vizinha que acabou lhe contando que a moça havia ficado muito abatida com sua ausência. A família com medo de que ele não voltasse mais e acabou insistindo e convencendo-a a casar-se com um antigo pretendente. Que duro golpe a vida lhe dera. Ter de escolher entre um amor ou suas asas e acabar ficando sem os dois.

Ele deixou de lado sua liberdade para isso? Sua imortalidade, suas asas, seu céu azul. Tudo seria trocado por ela. E foi. Mas ela não o esperou tanto tempo. Por que havia pensado tanto mesmo quando já sabia a resposta que queria responder. Nunca soube do seu sacrifício. Nunca o amou. Com tanta dor no peito, Serafim buscou o mais alto precipício que podia alcançar sem suas asas e de lá se atirou.

Teria Serafim apenas morrido como o simples mortal que se tornara? Ou teriam os deuses se compadecido da dor do pobre anjo e lhe devolveram suas asas? O que há de certo é que Serafim morreu...

De amor...

sábado, 28 de maio de 2011

O decote que não sai da minha cabeça.


Certo dia enquanto estava no horário da monitoria, via-me obrigado a permanecer naquela sala vazia até que o horário acabasse. E punha os olhos para fora daquela sala buscando qualquer ser que me livrasse daquele tédio. Freqüentemente é assim, as provas passam e ninguém mais que aprender nada, ninguém tem dúvidas, ninguém quer fazer uma questão. Mesmo assim, os monitores devem permanecer nas salas até que o horário acabe.

Voltando à solidão daquela sala, já estava farto. Já havia contado e recontado as cadeiras inclusive separando-as quanto serem normais ou para canhotos. Já havia buscado um padrão que explicasse as cadeiras fora das filas como se quisesse ver uma lógica naquela desordem. Já havia tentado juntar as últimas palavras que haviam naquele grande quadro branco, tentando decifrar pelo menos do que tratavam. Foi quando ela chegou.

Já nos conhecíamos de vista, ela já estivera na minha monitoria em outra oportunidade. Desejou-me um bom dia, entrou, sentou-se e pediu que a ajudasse com algumas questões. E eu que reclamava do tédio e da solidão agora tinha companhia e uma ocupação. Entre uma questão e outra conversávamos um pouco a conversa de sempre daqueles que fazem meu curso: o quanto estávamos cansados, atarefados... Estava muito agradável até que o pior aconteceu...

Enquanto explicava uma questão um pouco mais complicada ela acabou curvando-se para frente mais do que deveria num ângulo θ (Lê-se téta) tal que a componente vertical do peso da blusa fez com que esta se afastasse do corpo e antes que alguém pense algo, deixem-me explicar os fatos. Já cursei a disciplina de Introdução a função de várias variáveis na qual aprendi a esboçar gráficos de curvas e superfícies no R³ (espaço tridimensional), o que era mais do que suficiente para deduzir o que a blusa havia deixado de cobrir. Atenção, apenas deduzí, não comprovei, virei o rosto, fui rabiscar alguma coisa no quadro e ela inocentemente, creio eu, continuava naquela posição.

O que fazer? Olhar estava fora de cogitação. Não que eu seja um santo ou o mais puro dos homens, longe disso, eu não sei exatamente porque, talvez tenha a ver com honra e nobreza, talvez não. Talvez eu não faça a menor idéia. Apenas achei que não deveria fazer e apenas não fiz. Mas o que fazer? Falar pra ela ou deixar pra lá? Se eu falasse ela ficaria constrangida e pior, pensaria que eu ví o que não devia. Mas eu não ví. Mas ela pensaria que eu ví. Mas eu não ví! Levar a culpa por algo que mesmo tendo a chance de fazer não se fez é a pior coisa do mundo. Mas se eu não falasse ela poderia acabar sofrendo um constrangimento maior do que uma simples repreensão. O que fazer?

Em meio a esse dilema lembrei-me de um episódio que me ocorreu quando tinha uns 13 anos e estava na 7° série. Certo dia em que seriam realizadas provas, uma colega de classe entra correndo e me falou ofegante:
“Quase perdí a hora, tive que vir correndo desde o portão da escola até a sala.”
Daí ela sentou-se do meu lado, pegou minha mão e colocou sobre seu peito (sempre prefiro falar seio(s) ao invés de peito(s) quando falo de mulheres mas prefirí abrir uma exceção) e me falou:
“Sinta como meu coração está disparado!”
Eu quase morrí de vergonha e rapidamente tentei tirar minha mão:
“estou ocupado aqui, não posso sentir nada.”
Mas ela insistiu, pegou minha mão novamente e colocou de novo sobre seu peito:
“É rápido, sinta como meu coração está acelerado.”
Verifiquei em um tempo muitíssimo menor do que os recomendados 10 segundos para que se verifique a pulsação.
“Pronto, já sentí. Agora me deixe estudar.”
Como nos davamos bem ela estranhou a minha hostilidade. Anos depois quando a contei minha versão do ocorrido ela entendeu o porquê...

De volta para o futuro desse passado, o que fazer? Se eu falasse ela pensaria que eu ví. Mas eu não ví. Mas eu já falei isso. O que fazer? Até agora só pensei mesmo em escrever esse texto que é uma espécie de alerta para as meninas sobre o constrangimento que seus decotes causam em alguns caras viajões que se importam com honra e nobreza. O horário da monitoria acabou, ela agradeceu e foi embora. Mas seu decote não saiu da minha cabeça.

sábado, 30 de abril de 2011

Xantypa


Quase toda sexta-feira tenho ensaio na igreja à noite (toco baixo), como tocamos no Sábado pela manhã e moro um pouco distante da igreja, aproveito e durmo na casa de Stefferson, a quem não posso me referir como “um amigo meu” e sim como “Meu amigo”. Geralmente jogamos um pouco de vídeo-game, olhamos besteiras engraçadas na internet (antigamente jogávamos bola, mas desde o dia em que quebrei meu nariz com meu próprio joelho, num momento mágico do futebol, desisti e de certa forma fiquei até com medo).

Na casa de Steffeson mora Xantypa, uma bela cachorrinha vira-lata, pêlo escuro e sempre brincalhona (só pra esclarecer, prefiro cachorrinha a cadelinha, acho mais carinhoso). Ela mora em sua casinha que fica no quintal da casa. A missão de Xantypa na terra, ou seja, no quintal da casa de Stefferson, era proteger as galinhas que alí são criadas, sendo ela, portanto, uma espécie de cão pastor, mas precisamente um cão pastor de galinhas.

Mas logo que o tempo foi passando, percebeu-se que, talvez, Xantypa não tivesse vocação para a missão que recebera. Em primeiro lugar, não cresceu muito, sendo assim tornava-se incapaz de espantar um ladrão de galinha, por mais descorajoso que este pudesse ser. Em segundo lugar, por vezes ouvia-se muito barulho no quintal, quando Aloísio, o pai de Stefferson, dirigia-se ao quintal só achava as galinhas assustadas e Xantypa com um pinto na boca, judiando do pobre ser. Realmente ela não tinha vocação para ser um cão pastor de galinhas, nem todos os cães nascem com esse impressionante e maravilhoso dom.

Mas quando descobriram que Xantypa fazia mais mal do que bem aos galináceos já era tarde demais, todos na casa já tinham se apegado a ela e, como sabemos, quase sempre o coração fala mais alto. Portando, Xantypa não tinha mais razão para existir, a não ser o fato de ser o bibelô da casa... Imagino as noites que ela deve ter passado sem dormir tendo crises existenciais: “de onde eu vim?”, “por que estou aqui?”, “Au, Au!”. Pobrezinha. Nem cavar, nem latir, nada a animava, nem as galinhas. Morder o pescoço de um pinto já não lhe alegrava. Ela queria se sentir útil, fazer jus a ração e aos doces que recebia e tanto apreciava. Mas um dia a sorte dela mudou.

A casa de Stefferson fica bem perto do rio e por isso, vez por outra aparecem uns animais “selvagens” pela redondeza. Preás, tejus, e até soins. Inclusive um desses soins se acostumou a ir pegar comida lá em Stefferson. Pedaços de banana, pão, até cream cracker. Seu nome era Chico. Era até o dia em que em que Chico apareceu com um filhotezinho, dia em que perceberam que se tratava de Chica. Mas nem todos esses visitantes são bem vindos. Vez por outra aparecem ratos-do-mato. Bom, existe porco-do-mato, cachorro-do-mato, gato-do-mato, porque não rato-do-mato? Ou você acha que todos os ratos, assim como Jerry, moram em mini apartamentos bem mobiliados dentro das paredes?

Certo dia perceberam que havia um rato na cozinha, tentaram matá-lo e este acabou fugindo para o quintal. Quem salvou o dia? Isso mesmo, Xantypa. Em um ato heróico, saltou executando um bote certeiro e deu cabo da feroz ratazana. Todos ficaram felizes e orgulhosos, principalmente Xantypa, que voltou a ter alegria em seus dias pois descobrira qual era seu dom, caçar ratos.

Tempos depois outro rato apareceu e o pensamento foi unânime, tragam Xantypa. Ela entrou com um porte imponente, coluna ereta. Andou pra lá e pra cá, tentando encontrar alguma pista que a fizesse desvendar o paradeiro do rato.
“Vejam, parece que ela farejou algo.”
Xantypa saiu seguindo aquele rastro com muita convicção, todos estavam certos que em pouco tempo ela encontraria o rato e o exterminaria. De repente ela para e fica erguida sobre duas pernas apontando com o fucinho para cima de um balcão onde terminava a trilha que seguira. Nada de rato! Xantypa tinha farejado até a vasilha onde guardavam os biscoitos, bolachas e outros doces... Que bela caçadora.

Seria Xantypa um fracasso? Ela só teria matado o outro rato por que este teria encontrado alguma coisa doce no lixo e havia ficado com o cheiro das guloseimas, o que acabou atraindo xantypa? Não sei. Talvez nunca saiba. Mas não custa imaginar...

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Vetor normal ao plano das idéias.


(Saudade)
Sinto fome, sinto medo,
Sinto que o tempo não passa.
Sinto sede, sinto sono,
Mas não sinto a sua falta.

(Alegria)
Vejo graça, sinto risos,
Sinto aquela nostalgia,
Sinto os tempos de criança,
Sinto a mais inocente alegria.

(Sensibilidade)
Sinto o cheiro, sinto a brisa,
Sinto o gosto, sintonia,
Sinto que não vem de longe
Esta doce melodia.

(Amizade)
Sinto fé, sinto confiança,
Sinto tua sinceridade,
Sinto você sempre por perto,
Sinto o que é amizade.

(Culpa)
Sinto tédio, que tristeza,
Sinto dor e solidão.
Sinto culpa, sinto remorso,
Sangue inocente em minha mão.

(Rejeição)
Sinto caras, sinto olhares,
Sinto que não sou bem-vindo,
Sinto-me preso, sinto entalo,
Sinto o coração partido.

(Déjà vu)
Sinto inveja, sinto agonia,
Sinto o vento e sinto frio,
Sinto que já passei por isso,
E na pele sinto arrepio.

(Adeus)
Sinto que é tarde, sinto muito,
Sinto que chegou a hora,
Peço perdão por meus erros,
Au revoir! Arrumo as malas e vou embora...

Ela odeia Ele


Não sei o porquê, não sei por onde, não sei como. Mas sei que Ela não gostava dEle. Não que fosse missão impossível, passível de filmagem em Hollywood (ou até mesmo em Bollywood); Ele como todo mundo, ou até mais, tinha seus defeitos aos montes e por cima uma pitadinha de qualidades, mas, nem por isso mereceria seu desprezo eterno.

Como tudo começou? Não sei. Ele, coitado, não faz idéia. Jura que é coisa só dá cabeça dEla, mas, não descarta a possibilidade de ter feito algo causador disso. Desde pequeno acostumou-se a levar a culpa por tudo que aparecia de errado em casa, ser culpado já era algo mais que intrínseco a sua pessoa:

No começo, perguntavam-lhe:
“Foi você que fez isso?”

Ele respondia:
“não, não fui eu!”

Anos de experiência, sabia que quando colocavam isso na cabeça inevitavelmente a responsabilidade seria dele e dizer que não havia feito só dava comprimento a conversa e mais chateação...

Depois, perguntavam-lhe:
“Foi você que fez?”

Ele respondia:
“sim, fui eu! Bati o carro, não coloquei o lixo pra fora, bebi toda a água gelada e não enchi as garrafas. Também sou responsável por não termos crescido os sonhados 5% no PIB, pela diabetes da vovó, pela péssima campanha que o Vasco tem feito esses anos, pelas férias do papai que nunca chegam, pelo alto número de mortes no trânsito e pelo aumento inexplicável e abusivo no preço da gasolina. Por minha culpa: houve essa guerra no Iraque e no Afeganistão, o petróleo do mundo está acabando, os Sarney continuam mandando no Maranhão, e o Lula ta sem um dedo em uma das mãos. Além disso eu to impedindo que descubram a cura pro câncer e a casa só está suja porque não quis tirar os chinelos quando entrei.”

Desse modo irônico, ao invés de levar a culpa, se passava por vítima, se livrava das acusações injustas (e das justas também) e encurtava a conversa.

“É, no fundo Ela me odeio por causa daquele dia que eu fiz aquela coisa que Ela não gostou... Seja lá esse dia qual for e seja aquela coisa qual for.”

Mas voltando ao ódio que Ela sentia por Ele, não consigo imaginar uma situação que fizesse tudo isso ter um sentido, prefiro aceitar o insosso Big Bang. Ela era caseira enquanto ele odiava sair. Ela era dedicada aos estudos, queria passar no vestibular enquanto Ele já fazia faculdade. Ela era bastante educada e Ele pelo menos procurava ser. Ambos gostavam de “cortar” os outros e, pelo que dizem, eram um pouco mais espertos que a média. Talvez eles até fossem muito parecidos e, talvez, aí estivesse o problema. Aquilo que Ela achava insuportável nEle, mesmo o espelho não sendo capaz de mostrar, muito provavelmente Ela também tivesse.

Se Ele tivesse mais tempo, bolaria mais teorias.

“Será que ela é nazista e acha que sou judeu?”

“Será que ela é Judia e me viu comer carne de porco?”

“Será que Ela é “porco” e pensa que eu sou “timão”?”

“Será coisa da minha cabeça, só imaginação?”

Mas nem tudo faz sentido no mundo e Ele, sabendo disso, respeitava o que Ela sentia, mesmo sem entender, mesmo sem saber ao certo se é que Ela sentia algo. É claro que isso atiçava sua curiosidade. Será que foi algo que Ele fez? Algo que Ele disse? Algo que Ele vestiu? O problema é se tudo fosse por algo que Ele era. Aí as coisas sairiam do campo de um possível mal entendido e entrariam no campo do pessoal, do irremediável. Ah, talvez se Ele fosse menos chato e Ela mais tolerante. Mas não importa muito como as coisas poderiam ser especialmente em momentos em que elas já são...

Um dia tomando coragem emprestada com alguém, dirigiu-se a Ela e disparou:

“Por que você não gosta de mim?”

“Não sei, só sei que não gosto.” Respondeu Ela.

Que todo mundo precisa gostar de alguém é algo que faz parte do senso comum, mas ainda não faz parte desse senso que todo mundo precisa odiar alguém. Vai ver é só isso. Acontece... Aconteceu com Ele... Pode acontecer comigo ou com você... Ah, pode acontecer com Ela também, viu? Nunca se sabe...

sábado, 12 de março de 2011

Cajarana


“Quem entra nesse carro não tem grana,
por isso o nome dele é Cajarana”

Lembro-me com uma dose moderada e cautelosa de saudade de uns tempos, não tão antigos, em que a situação aqui de casa conseguia ser pior (Deus, perdoe nossa ingratidão!). Tempos estes em que eu tinha na faixa de 11 pra 12, auge do início do fim da infância e começo da idiotescência (nesse trecho eu travei uma feroz batalha com meu editor de texto (tá, Word, ok? Microsoft Word) para que este aceitasse meu neologismo).

Quando a gente tem certa idade, parece que Deus nos presenteia com o dom do retardo mental afim de que façamos besteiras aos montes para que possamos (pelo menos os espertos) aprender lições que nos ajudarão no desenvolver de nossa maturidade e nos orientarão por toda vida. Confesso que nem todos aprendem de primeira. Aprendem na segunda, na terceira. Fodam-se os que nunca aprendem! Dizem que errar é humano; já o perdoar é Divino (errar duas vezes é coisa do MEC). Aprender com os erros dos outros é o que chamo de sabedoria.

Mas, indo direto ao ponto que não interessa a ninguém, os fatos eram que eu tinha essa faixa etária já mencionada, era gordinho (gordinho = gordo pequeno. hoje que cresci um pouco sou gordo) e tinha um belo de um cabeção que faria inveja a Milton Neves. Pra falar a verdade gordinho foi eufemismo de minha parte, eu era uma bolinha de gordura hidrogenada, um forte concorrente a astro de cinema caso continuassem a saga da orca Willy e esta ganhasse um filhote ou irmão mais novo.

Geralmente é nessa faixa etária em que os pelinhos começam a nascer, surge também o que vou nomear por “enxerimento”, em homenagem as pessoas de mais idade. Usei o termo “geralmente” por que eu, de tão enxerido, comecei minha vida amorosa muito cedo, por volta dos 10 anos de idade (nesse trecho dei boas risadas). Eufemismo novamente! Hoje estou um Lord. Em substituição a “vida amorosa”, leia-se “decepções amorosas”. Maus-bons-tempos.

Bom, comecei esse texto no intuito de contar o quanto morria de vergonha no tempo em que meu pai tinha um fusca amarelo, mas, memórias começaram a brotar e não quis interromper... Meus amigos da época chegaram até a fazer a musiquinha cujos versos estão após o título. Confesso que achava legal quando ele tentava me ensinar a dirigir, mas no íntimo, nunca queria que os colegas da escola me vissem saindo do fusca. Seria um atestado de pobreza.

Mas que vergonha pode ter um pobre de apresentar um atestado de pobreza? Pode um recém nascido impedir que façam-lhe uma certidão de nascimento? Ou um defunto opor-se que lhe preparem um atestado de óbito? De certo eu preferia ver meu atestado de óbito do que chegar na escola em um fusca, que já não achando que chamava muita atenção por seu discretíssimo amarelo, ainda fazia uma barulheira dos infernos. Engraçado que em outros lugares tudo bem, mas na escola eu não queria de maneira alguma (talvez pelo fato de ser o local onde eu conhecia mais meninas).

Meu pai sempre se oferecendo para ir me deixar, com a melhor das intenções (ou não) e eu sempre gentilmente recusando, preferindo caminhar uns 3 km para ir à escola:
“Não painho, pode deixar que eu vou andando com os meninos ”
Meninos uma ova, saia disparado com medo de que ele insistisse e meu pior pesadelo se torna-se verdade.

Consegui fugir algumas vezes até que ele, percebendo meus motivos, um dia bateu o pé e disse que ia me deixar. Nesse dia não teve conversa que resolvesse, aí apelei pro choro e pra minha mãe. Ele queria pelo menos que eu confessasse que tinha vergonha do fusca:
“Não, pai, não é isso”, entre lágrimas e soluços.
Ele me disse:
“Pode falar, você tem vergonha de chegar de fusca e que eles riam de você, pensem que somos pobres.”
Já não agüentando respondi:
“É, pai, é isso. Por favor, não me leve.”
Ele calmamente respondeu:
“Mas meu filho, somos pobres. Então não há problema algum em que pensem que somos pobres. Problemas teríamos se pensassem que somos ricos.”

[...]

Mesmo chorando ele me colocou no Carajana e me levou até a escola. Saltei do carro tão rápido que até hoje não sei se riram de mim ou não, se é que alguém me viu sair daquele carro. Não importava mais, eu já havia aprendido a lição. Daquele dia em diante, muitas vezes cheguei a escola graças àquele bendito fusca amarelo.


Sei que muito provavelmente você já ouviu que as pessoas tem seu valor pelo que são e jamais pelo que tem, ou já leu qualquer meia dúzia de palavras que abordavam o assunto. Bom, acho que essas palavras merecem sempre serem lembradas, fiz minha parte.

Naquela manhã nublada de um dia qualquer, de um mês que eu não me recordo, de um ano que já não importa, meu pai me ensinou uma grande lição de vida.

Que eu podia sentir vergonha por algo que tinha feito, mas jamais pelo que era.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Amanhecer


Tenho tanto medo de estar só
Que apago as luzes para não ver ninguém
Mas sei que a florescente luz do sol
Revelará o que tento esconder

No amanhecer... no amanhecer.
No amanhecer... sim, no amanhecer.


É hora de enfrentar
O que te fez fugir, te fez chorar
É hora de lutar!
Ou fazer as pazes, perdoar...

No amanhecer... no amanhecer.
No amanhecer... sim, no amanhecer.


Tenho tanto medo de estar só
Que até confio em quem não devo confiar
Mas sei que um dia tudo passará
E não terei mais que me esconder

No amanhecer... no amanhecer.
No amanhecer... sim, no amanhecer.


É hora de enfrentar
O que te fez fugir, te fez chorar
È hora de lutar!
Ou fazer as pazes, perdoar...

Mas não é sempre que logo amanhece,
Certas noites parecem não ter fim
Você pode até chorando perguntar:
“onde foi que se escondeu o sol?”

No amanhecer... no amanhecer.
No amanhecer... sim, no amanhecer.


Tenho tanto medo,
Que tenho medo de ter medo.
Eu tenho tanto medo,
Que tenho medo de ter medo.


No amanhecer... no amanhecer.
No amanhecer... sim, no amanhecer.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A regra tola do futebol.


Eu gosto muito de futebol, muito mesmo, mas Deus não me deu o dom de jogar bola, confesso ser um fracasso neste e em todos os outros esportes. Não sou bom em basquete, jogo as vezes de teimoso mesmo, na natação sou lento, mais continuo nadando por que faz muito bem a saúde e por que meus amigos da UFERSA também fazem. Mas, praticar esportes nunca foi e muito provavelmente nunca será um ponto forte meu.

Por não ser muito bom em fazer, mas gostar, procuro fazer algo que tenha relação, como por exemplo, analisar, considero-me hábil em analisar de forma crítica (“botar areia”), ver melhorias que poderiam ser feitas ou defeitos e as vezes faço isso com a paixão nacional, depois de bunda e cerveja, o futebol.

Antes que alguém imagine errado, não vou falar sobre impedimento não, o famoso fora de jogo, inclusive, se você é uma mulher e está lendo em busca de aprender sobre futebol, desista, não é minha intenção.

No futebol existe uma regra para a reposição da bola após infrações (faltas), a bola deve estar parada. Mas como assim a bola deve estar parada? O que deve ser considerado? Por que todo mundo aprende em física que só faz sentido falar em repouso ou movimento se for convencionado um referencial. Bom, quando recoloca-se a bola em jogo e esta estava em “movimento”, tem que voltar o lance e cobrar novamente...

- “piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii” (onomatopéia de um apito, foi o melhor que pensei), volte o lance, a bola tem que estar parada, disse o juiz.

- Mas juiz, com relação a Carlão, aquele cabeçudo, zagueiro, número 4, que passou correndo, a bola estava em repouso já que a posição entre eles não variava com o tempo, falou Ronilson, o lateral direito, número 6.

O juiz responde:
- É verdade o que você fala, pelo menos está fisicamente correto, mas, para a FIFA, considera-se o campo como referencial a ser adotado no estudo do movimento da bola, sendo assim, o lance terá que ser repetido e o senhor será advertido com um cartão amarelo por reclamar usando argumentos não usuais para um jogador de futebol.

Mas, é realmente confuso e, além disso, existe a vantagem, que acontece quando um cara leva uma bela de uma voadora, mas a bola continua em posse de seu time (queria usar o mesmo termo usado para um trabalhador que arranca mato com uma enxada, capinar). Sério mesmo, acho besteira, poderia muito bem deixar cobrar com a bola rolando mesmo, já que sempre se busca agilizar, dar fluência ao jogo.

Mas, para ver se a bola está parada ou não, considera-se a velocidade instantânea, que é a velocidade média em um instante infinitesimal, pode até ser feito pelo velho Vm=dS/dT do ensino médio (variação de espaço por variação de tempo), mas considerando uma variação de tempo particularmente pequena (também pode ser feito por derivadas, taxa de variação, limites, enfim, cálculo I). Se o intervalo estudado for realmente muito pequeno, o deslocamento será quase nulo e aí a bola estaria parada!

Eu explico melhor, existem câmeras digitais muito boas, as que dizem que não tem tremido, essas câmeras captam a imagem em um intervalo menor que as outras, assim você tira foto de um fórmula 1 a 316 km/h e ela sai perfeitamente na foto, sem tremer nem borrar, como se estivesse estacionado exatamente ali. De maneira semelhante, observar um corpo objeto por um bilionésimo de segundo, para velocidades bem inferiores a C (velocidade da luz no vácuo), ou seja, valores atingíveis, sempre resultará que o corpo estará em repouso, mesmo que este não “esteja”.

Por isso convencionar que o campo é o referencial a ser adotado no estudo do repouso da bola não é suficiente, deve-se atentar também para o tempo que se deve observar, caso contrário nunca se pode entrar em consenso sobre a bola estar parada ou não, já que para intervalos minúsculos de tempo, ela com certeza estará parada.

(Ah, só pra deixar claro, depois de umas barbaridades que vi, não considero mais F1 como um esporte)

Narrador:
“O juiz apita marcando a falta, e diz que essa foi a última do zagueirão, na próxima vai botar pra fora. O que você acha?”

Comentarista:
“É, ele está fazendo seu papel de impedir ataques por aquele setor do campo e fazer algumas faltas faz parte, mas o juiz está conversando muito e mostrando poucos cartões, daqui a pouco ele pode se complicar por isso.”

Narrador:
“Lá vem o juiz, pegou a bola, pôs no chão, acocou do lado, observou os cinco segundos recomendados pela FIFA, constatou que a gorduchinha está em repouso e apitou permitindo a cobrança da falta.”

Também seria estranho, não é? Não faria muito sentido, não é? Mas do jeito que é hoje, também não faz muito sentido, pelo menos não pra mim.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Uma outra história de Prometeu (I)


Mas o que é o futuro? Será que futuro pertence àquela classe de palavras que o homem criou para designar coisas que não existem? Como diria meu professor de filosofia: “O presente existe, passado e futuro não, pois o futuro nunca chega e o passado não tem valor por que passou, não passa de presente gasto”. É uma forma de interpretar...

O passado é o presente que já se gastou, de certa forma é mais real que o futuro, este de fato não existe por que nunca chega, ou quando “chega” deixar de ser o que seria, pois agora é, perdendo a natureza de futuro, pois esta é sua natureza: nem ser nem ter sido. Mas o presente é tão frágil... Eu realmente lamento por isso, por que o que estava ou era presente agora não é mais... Você nunca lembra com perfeição de todos os detalhes daquela música, o gosto do chocolate que se perde na boca, ah, eu realmente lamento. E aquele presente que eu antes mencionei já virou passado.
Mas o futuro? Já é predefinido e imutável? A quem pertence? Somos donos do nosso?


Supersticiosa, como sempre, Ana continuava com suas manias, rituais e crenças, sempre interessada em saber do futuro, ou, com auxílio das forças que a guiavam, decidir que caminho tomar. Sendo como era, Ana não podia deixar de ter em casa aquela boa ferradura, uma grande Bíblia aberta nos Salmos, uma dúzia e meia de santos e tudo quanto mais se possa esperar de alguém como ela. Quando moça, em tempos de casar, fez questão de pedir ao pai que lhe arrumasse um marido que tivesse nome de santo, como ela.

Seu pai te trouxe um João. Homem forte, traços rurais, pele queimada do sol, supôs ela ser um peão, então Ana entrega nas mãos da cigana seu destino.
- Cigana, da sabedoria que tens e da que lhe é dada, revele se este é meu destino.
A cigana respondeu:
- Caem as cartas e diante dos meus olhos o futuro se levanta! Este homem chamado João não te fará feliz, de forma rude ele te tratará e pouco será o amor de vocês e como o gado, que nasce cresce e na flor da vida é abatido. Será como o sol, que faz despertar com um calor agradável, mas ao passar o tempo, ao meio dia, torna-se insuportável, secando toda água, matando toda erva, queimando e destruindo.

E Ana resolveu pelo que as “cartas” resolveram e pediu ao pai que lhe arrumasse outro pretendente. O Pai, amoroso que era, decidiu fazer os agrados da filha, mesmo sabendo que o rapaz era um bom partido, filho mais moço de um rico fazendeiro, João tinha coração humilde, tomava conta dos rebanhos do pai, pelo apego que tinha aos bichos, por isso seu aspecto grosseiro, mas, de certo, teria feito Ana muito feliz.


Então o Pai de Ana lhe trouxe José, filho do coletor de impostos da vila. Poderia este seguir o ofício do pai e garantir a Ana uma vida confortável, sem contar o fato de que era o jovem mais belo das redondezas. Ana empolgada vai até cigana novamente já imaginando o sim que receberia da boca desta, já que o pretendente era dos melhores, moço sem defeitos, desejado por todas as mulheres, solteiras ou não.

- Cigana, da sabedoria que tens e da que lhe é dada, revele se este é meu destino.
A cigana respondeu:
- Caem as cartas e diante dos meus olhos o futuro se levanta! Este homem chamado José não te fará feliz, com severidade te cobrará nos teus afazeres, será impiedoso nas tuas faltas. Tirará-lhe os melhores anos da vida. Abandonará-te na velhice quando houver desfrutado de toda tua beleza e juventude.

Ana fica triste, mas aceita o destino que as cartas lhe deram e, assim como fizera com João, rejeita José mesmo sem este ter te feito nenhum mal. Algum tempo depois seu Pai trouxe mais um pretendente, tempo este suficiente para que a cigana conseguisse casar suas duas filhas com João é José, fato que de maneira alguma pode se atribuir ao destino, mas sim a esperteza da cigana. Este terceiro pretendente de Ana era ainda mais forte que João e mais belo que José, mas estes não eram seus pontos fortes, era ainda um homem muito bondoso, generoso e prestativo. Era um jovem comerciante recém chegado na vila, seu nome era Antônio.

Desta vez, Ana decide nem procurar a cigana por medo de perder o pretendente que, de maneira diferente dos demais, logo conquistou algo mais que sua simpatia, roubou-lhe o coração. Ana se casa e em pouco tempo os negócios de Antônio prosperam e este se torna o homem mais rico da região. Para coroar a alegria dos dois, Ana descobre estar grávida.

Mesmo tendo “roubado” os dois primeiro pretendentes, a cigana sente inveja pela alegria e prosperidade de Ana. Teria Ana pregado uma peça nela? Ou seria obra do destino? Para acabar com a alegria de Ana a cigana decide procurá-la para lhe dar uma visão que teve.
- Jovem Ana, sua alegria será passageira pois o filho que carrega no ventre não vingará. Esta criança que ainda nem se fez carne já tem data para voltar ao pó, pois me foi revelado que ele morrerá no mesmo dia em que nascer! Outra pessoa talvez não desce importância, mas Ana cria por demais em coisas não tão claras.

Dores de cabeça, preocupações, Ana não para de lembrar das palavras da cigana. Dores de cabeça, quase loucura, dor do parto. Ana quase inconsciente vê seu filho nascer.
- Ana, é um lindo homenzinho, que nome carregará pela vida? Uma homenagem ao Pai? Quem sabe ao avô... Que nome lhe dará, Ana?
Ana sem se deixar invadir pela alegria lembra das palavras más da cigana e responde:
- Não darei nome algum, esta criança morrerá ainda hoje, assim me prometeu a cigana.
As pessoas espantadas rebatem:
- Que bobagem, Ana, a criança é bela e sadia. De certo não deixará que cresça sem nome. Qual será?
Ana insistiu:
- Não darei nome algum, esta criança morrerá ainda hoje, assim me prometeu a cigana.

Para não contrariar a mãe nem deixar o pobre inocente sem nome, foi então chamado de Prometeu, sem sobrenomes, por se tratar da criança que a cigana prometeu que morreria no dia em que nasceu.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Campo grande



“a viagem de ida demora muito, você está cheio de expectativas a respeito do que vai encontrar e a saudade de casa é quase nula”

No terceiro final de semana de 2011 fui passar uns dias na cada de Erico, amigo que conheci no CEFET que hoje é IF (talvez nunca vá me acostumar). Por sorte, ele mora em Campo Grande, cidadezinha pequena (não que Mossoró não seja) com muitos traços rurais.

“Lá era gostoso fazer nada.”

Erico e eu pensamos de forma muito parecida (e maluca), sempre que eu ria de algo ele sabia por que eu estava rindo, mesmo que a explicação tivesse a ver com o livro “Fundamentos da física” ou com uma música dos Beatles. Se fosse só pelas conversas longas e sem muito nexo já teria sido ótimo, mas ainda aconteceram outras coisas.

Primeiro um circo cuja entrada me custou R$ 2,00. Aí eu te pergunto: tem como um espetáculo de R$ 2,00 prestar? Pô, eu sei que o preço das coisas nem sempre reflete seu valor (muitas vezes confundimos por que geralmente valor e preço apresentam relação de proporção), existem coisas baratas que são melhores que coisas caras não só por serem mais baratas lol. Mas, seguindo a lógica, o circo foi muito fraquinho, mas eu estava ali para ver qualquer coisa. Os palhaços conseguiam ser do nível de Renato Aragão em grau de previsibilidade e empolgação (empolgação tende a zero quando a previsibilidade tende ao infinito) sendo que no circo não havia extintor de incêndio. Para ser justo, tenho que confessar que ri horrores em um momento:

O palhaço propôs um desafio a alguns meninos, ele dizia as partes do corpo e os meninos tinham que tocar rapidamente:
- Nariz.
- Olho.
- Barriga...

Até aí tudo bem... Alguns meninos foram eliminados, restando apenas dois que vieram a formar uma espécie de final mundial que unificaria o título de criança tocadora de partes do corpo (¬¬’). Só que desta vez, ao invés de tocar nas próprias partes do corpo, eles teriam que tocar na parte mencionada no outro garoto:
- Cabeça.
- Nariz.
- Boca.
- Barriga...

Até que o palhaço solta uma palavrinha que eu estou tentando falar de uma forma polida, meiga, mas não sei se eu vou conseguir. Bom, vou usar o termo “órgão reprodutor masculino”, tá? Acho que soa melhor que os nomes mais comuns e não sei se seria muito legal para um universitário falar pipiu... Enfim... Foi quando o palhaço tava enrolando e falou:
- Nariz.
- Barriga.
- Órgão reprodutor masculino!

Os coitados dos meninos ficaram se olhando por uns 3 segundos. Eu sei que foi doloroso, deve ter demorado muito pra esse tempo passar, aposto que eles viram suas vidas passando diante dos seus olhos (se considerar que os pirralhos deviam ter de 8 pra 10 anos, nesses três segundos deu pra ver o “filme da vida” umas três vezes com direito a dar uma paradinha naquele dia em que viram mulheres de calcinha numa revista). Cara, eu juro que eu vi em câmera lenta, um moleque começou a mover o braço... Moveu... Moveu...

Quando esse menino pega lá nas partes do outro quase o circo vai abaixo, foi muito mais emocionante que um gol de copa do mundo (ainda mais se você considerar que ultimamente o Brasil... Dunga e Felipe Melo, nunca vou perdoá-los). Foi aquela explosão, pense, todo mundo gritou, vibrou. O palhaço até tentou comentar alguma coisa, mas, a cena não precisava de título, nota de rodapé nem legenda. O menino foi ovacionado.

Engraçado que o contato durou cerca de alguns micro ou milissegundos, só o tempo do pobre do menino ter percebido o que tinha feito. Talvez aquele fato marque sua vida para sempre. Imagine ser conhecido na cidade como “pega-pinto”.

Voltando ao mundo real, a comida era ótima, a mãe dele cozinha muito bem (abraço, Dona Marineide lol) e além disso, contava positivamente o fato de eu sentir que tudo era fresco.
Sei lá, senti que a qualidade de vida é maior quanto mais se distancia do mundo urbano. Podíamos ir a qualquer lugar a qualquer hora. Sinto falta de sair à noite sem ter que ficar olhando para trás, com medo. Ele me falou:

“vez por outra tem umas mortes por aqui, mas é sempre por que o cara já tinha matado um da outra família...”

Pô, se considerar que hoje as pessoas estão matando sem motivo, só pelo prazer de fazer o mal, estes assassinatos quase se tornam uma coisa positiva... Puxa, onde vamos parar...

Mais dias tocando violão, conversando pela madrugada, chegou a hora de voltar pra casa, tudo acaba e eu odeio despedidas...

“a viagem de volta demora quase nada, você já sabe o que vai encontrar, a mente se distrai com o que acabou de conhecer e isso vence a saudade que certamente logo vai passar”

sábado, 22 de janeiro de 2011

Chuuuuuuuuuuuuuuuva


Essas garotas do tempo são sempre tão bonitas e tão inteligentes.
Elas sabem como dar as notícias da maneira correta. Se for chover muito ela sabe como deixar feliz até quem planejava pegar uma praia. Se você estiver morrendo de calor, ela te deixará contente mesmo depois de informar que na sua cidade a máxima será de 37° e a mínima de 35°.
Ah, mulheres do tempo. Como elas conseguem? São verdadeiras feiticeiras contemporâneas...

Imagine-se casado com uma mulher do tempo:

“Hoje teremos arroz, feijão e bife no almoço, amor”
“Já para o jantar, provavelmente teremos sopa de carne na casa da mamãe”

Puxa, eu pude a ouvir falando isso com aquela voz macia. Puxa, “sério mesmo”, a imaginei indicando os alimentos naquele painel.


Sei lá, nunca tive uma boa relação com chuva, sempre sentia uma tristeza ao primeiro sinal de que iria chover. Já ouvi que essa tristeza era comum em adultos, provavelmente nascida de traumas infantis, sendo o caso mais comum a privação de brincar na rua que a chuva proporcionava. Acho que não é bem meu caso. Chuva aqui em Mossoró sempre foi sinônimo de banho de chuva, procurávamos as maiores quedas de água... Como a casa da minha avó é perto do centro (alguns consideram centro), nos aproveitávamos das biqueiras dos grandes armazéns pra tomar banho, alguns chegavam até a doer nas costas e na cabeça.

É, no caso tradicional eu não me enquadro. Mas eu conheço meu caso, ou pelo menos penso que conheço. Das poucas lembranças do tempo que morava em Salvador era da pequena casa em que morava que inteligentemente, pra não usar palavreado baixo (não que não use ou me incomode usar, é que respeito muito minhas memórias, não vou misturá-las com coisas ruins), possuía uma abertura na parede para ventilação que, de fato, molhava a casa quando chovia...

1x0 (Um a Zero) para a chuva.

Lembro também (claro, quem bate esquece, mas quem apanha...) que a pouco tempo, mais exatamente de 2006 até 2009, dava aula de reforço... euahuehuahuheu Lembro com uma certa saudade. “Bons tempos...” E ao mesmo tempo penso: “Tempos horríveis”. Momentos bons e momentos ruins, como quase tudo nessa vida, não é? OK, o que tem de relação entre as aulas e a chuva? Bom, eu só tinha uma bicicleta e não gostava de me atrasar... Se chovesse, azar o meu... Tomava aquele belo banho à força, com aquela tradicional enlameada nas costas que o pneu traseiro insistia em jogar.

2x0 (Dois a Zero) para a chuva.

As vezes eu me conformava que ia me molhar, já ia logo passando pelas possas, sabe?
“Está no inferno? Abraça o capeta!”

Sei lá... Hoje tenho carteira de habilitação. Ir de um lugar para outro se tornou mais fácil, mais prático, mais rápido, mais monótono, menos divertido. Sinto falta da minha bicicleta, passamos por muita coisa juntos, algumas boas, algumas ruins... (já falei isso).

(Depois prometo escrever sobre minhas bicicletas uahuehauheuahuehuaehu.)

Eu não sei por que sinto isso quando chove, mas eu sinto, assim como sinto vontade de chorar se ouvir aquela canção:

“Como pode o peixe vivo
Viver fora da água fria...
Como poderei viver
Sem a tua companhia”

Por favor, espero que ainda me levem a sério depois disso e espero que saibam respeitar meus sentimentos e não fiquem cantando quando me encontrarem por aí. Tenho meus medos, como todo mundo, uns fazem sentido, outros não.

Sei lá, meu sentimento deveria ter passado já que não tomo mais banho de chuva se não quiser. Eu reluto, mas a vida está me ensinando de todas as formas que nem tudo requer explicação e que não há explicação para tudo. Eu sou muito racional, mas o racional se torna inútil se ignorarmos nossa intuição (ou não), assim como as pessoas muito passionais geralmente são as que mais sofrem.

Seria muito legal se eu encerrasse esse texto pedindo licença para ir tomar um banho de chuva, realmente um “Gran Finale”, mas não está chovendo. Eu prometo que tomo na próxima, quem sabe com uma mulher do tempo.