sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O que é que eu quero?




Quando a memória falha existe algum arrego no espírito que se mistura com um flash antigo te fazendo lembrar...

Lembro-me de muitas tardes lá na casa da minha vó (engraçado que embora a casa também seja do avô, geralmente conferimos a propriedade às avós, já que são quem geralmente fazem nossos agrados). Lembro que chegava da escolinha, ia na cozinha caçar um pão ou filós pra comer vendo desenho enquanto o almoço ficava pronto, almoço este que também seria consumido vendo desenho... Parecia que eu previa que a globo ia tirar do ar meus desenhos de porrada e colocar programas chatos de adulto. Pode ser que não seja o melhor momento pra tocar nesse assunto, mas posso não ter outro. Eu assumo publicamente que assisti as duas primeiras semanas dos Teletubbies... Vou tentar me justificar: a globo fez uma propaganda muito grande e eles ainda tinham cores, estilo Power Rangers... Também achei que podiam ser no estilo Pokémon, tipo fogo, água, planta... Achei que a qualquer momento ia ter um torneio de artes marciais tipo Dragon Ball Z ou que eles iam achar umas armaduras tipo os Cavaleiros do Zodíaco... Sei que passei duas semanas esperando aquelas porcarias começarem a pancadaria ou soltar raio pelas antenas ou pela barriga... Esse trauma me atormentou até um episódio dos Simpsons no qual aparecem os Teletubbies e um deles lança um raio no Homer, aquilo foi um conforto para minha alma. Sei que falei que lembrava das tardes, mas foi inevitável lembrar as manhãs que antecediam essas tardes. Muitas vezes o mais valioso está naquilo que nem sempre damos tanta importância...

Não lembro se a tia da escola passava dever de casa e eu fazia ainda na sala ou se não fazia, de modo que não há registros na minha cabeça de ocupar minhas tardes com estudos antes dos 15 anos. De tarde eu me dedicava a outras atividades: Nunca fui bom de bola, mesmo assim jogava sempre (esse lance da prática levar a perfeição simplesmente não deu certo comigo em diversos casos). No mesmo canto em que jogávamos bola já havia os três buracos clássicos pra jogar bila. Eu também não era bom, perdia sempre, não gostava de jogar apostando. Existia um mercado negro secreto por trás do jogo de bila, tinham uns caras mais velhos que sempre ganhavam... Eles chegavam sem nenhuma, pediam uma bila emprestada e saiam ganhando todas as outras... Muitas vezes eles nem queriam, era só pelo prazer de humilhar os pequenos... Também tinha o futebol de botão que nunca aprendi direito, jogava muito apesar do trabalho que dava pra separar os times... Nesse tempo todo mundo era pobre, vídeo game só na locadora... Nintendo, Play 1, Play 2... Era igualmente divertida a ansiedade antes de chegar, saber se estava lotada ou não e se mesmo que tivesse algum vago, havia ainda a tensão do risco de estarem usando o CD que eu queria. Sem contar que no final a gente ia apostando corrida até em casa. Puxa, chegar em casa e ligar meu Play 3 acabou de perder a graça... Também podia me “enterter” com um filme da sessão da tarde ou até uma novela boa, como foi Roque Santeiro (e não lembro de outra). Fui ver na Wikipédia aqui, Roque santeiro foi exibida no Vale a Pena Ver de Novo no final de 2000 até o meio de 2011. Massa, consegui rastrear minha memória, então, essas lembranças datam dos meus 10 anos de idade...

Às vezes não tinha filme, nem novela, nem jogo de bola nem de bila, nem vídeo game, nem nada! Não falo simplesmente da não ocorrência dos eventos, iniciar qualquer uma dessas atividades era muito mais fácil do que seria hoje em dia, apesar de hoje todo mundo ter celular e internet no celular. Não tinha mensagem no facebook, não tinha whatsapp nem twitter. Esse tempo remonta uma era anterior até mesmo às primitivas conversas nos “3 segundos” ou dos chips 31 anos e dos bônus de sms. Tudo dependia apenas de uma chinela para ir “nas casas” chamar o povo. Na falta de chinelo ia descalço mesmo, só que aí levava bronca. Também não falo dos dias que fiquei de bobeira e acabei fazendo “arte”... Falo de dias em que nada chamava atenção, nada me agradava ou apresentava potencial de me agradar, falo de dias que eu não sabia exatamente o que eu queria, mas sabia que as opções que tinha não me satisfaziam. A psicologia moderna poderia ter diagnosticado que se tratava de um distúrbio comportamental crônico causado por conflitos subconscientes ocasionados, muito provavelmente, por traumas na infância, todavia, a psicologia dos mais velhos ia dizer que era falta de peia, podia ser resolvida ministrando algumas doses de chinelada no rabo do paciente. Num desses dias eu olhei aflito pra minha mãe e perguntei: mãe, o que é que eu quero? Não lembro da resposta dela... Provavelmente não me falou nada filosófico, deve ter levado pra outro lado e me dado alguma coisa pra comer. Não me lembro de nada depois disso, beliscar alguma coisa deve ter resolvido. Todavia, esse tipo de vazio não se preenche com comida, embora se amenize. Não ouso dizer que isso seria um prenuncio dos dilemas existenciais, morais, sociais, profissionais... que me seguiram por toda vida, mas as vezes me pego pensando a mesma coisa, me fazendo a mesma pergunta: O que é que eu quero?

Às vezes não sabemos o que queremos por ter dúvida entre as opções. Às vezes sabemos o que queremos, mas, titubeamos por não saber se isso será realmente bom. Às vezes apenas fingimos não saber por medo de admitir querer o que queremos, às vezes é medo de sair da zona de conforto e ir à luta... Às vezes acabamos desviando o foco para não nos flagrarmos pensando “o que é que eu quero?”. Talvez esteja fazendo isso agora. Ou agora. Provavelmente agora. Agora, quem sabe... Se não antes, agora, certamente agora. Acho que todos nós um dia nos faremos essa pergunta... Gostaria de encerrar falando o que fazer nessa hora, passar alguma técnica que ajude a descobrir o que se quer, como saber se faz bem... Sinceramente não sei, só posso desejar boa sorte, de coração... E que você descubra o que você quer, ou não, já que dizem que não são as respostas que movem o mundo (e as pessoas nele) e sim as perguntas.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Ah, agora tudo faz sentido

(ps: hoje eu to meio puto, meio grosso, faz tempo que não escrevo... Sinto uma mistura de PRESSA com uma vontade desgraçada de estapear as faces de alguém.)

Sabe quando chega o final do filme e você entende aquele fato que ocorreu logo no meio da segunda cena? Sabe sim! Pelo menos deve saber. Ou você é como a minha mãe, que não presta atenção no filme e se levanta a cada 5 minutos? Eu me refiro àquela piscada do mocinho, àquela gargalha do vilão, àquela frase solta da donzela... Tanto faz, falo de qualquer coisa que antes você não podia entender, uma deixa... Isso porque o autor não lhe havia dado subsídios para isso, mas, com a ocorrência de novos fatos você vê que havia uma explicação, não necessariamente plausível, tautológica ou cientificamente embasada, mas é uma explicação... Isso não ocorre só em filmes... (lembre-se disso).

 Pode ser um amigo que passa perto de uma moça e arregala os olhos; (E depois te fala que ele já ficou com ela);
Pode ser um amigo que passa perto de uma mulher e a cumprimenta cordialmente (E depois te fala que é nela que ele está interessado);
Pode ser um amigo que vem e te dá um soco do nada... (E você entende que ele falou sério quando disse que era ciumento e que a namorada dele era a mais bonita da turma).

Nem sei por que falei isso, não quero descontrair... O clima é tenso, o que vou falar é sério... Se pudesse escolher uma música de fundo seria aquela da abertura do programa Linha Direta (eu assistia e quase não dormia direito) ou aquela música do filme Tubarão. Eu descobri como funciona nossa sociedade. E é mais ou menos assim:

Nós não vivemos. Somos apenas um recurso produtivo, a mão de obra. Só isso. Qualquer coisa além disso é mentira, fraude, engano e fantasia. Assim como máquinas, prédios, processos, somos apenas um recurso que transforma matérias primas em produtos finais. Mas esse nós não engloba todas as pessoa, viu? Que fique claro. Serve apenas a grande, gigantesca e esmagada maioria (isso mesmo, esmagadora não, esmagada). Existem uns poucos que tem direito à vida. Uns bastardos abastados dos quais somos meros serviçais. Eles sim tem o que se chama de vida, nós não. Temos uma perspectiva média de 75 anos de expediente, vida não. Mas o que nos falta? Essa é a deixa...

Você tem cama, mas não dorme.
Você tem comida, mas não come.
Você tem TV, mas não assite.
Você tem violão, mas não toca.
Você tem sede, mas não bebe.
Você tem vida, mas... ?
 [...]

 Não sei se na tão falada Constituição Federal de 88 ou se na Consolidação das Leis do trabalho (ou em qualquer outro papel que serve pra forrar fundo de gaiola), dizem que o salário do trabalhador deve ser tal que seja suficiente para atender as necessidades de moradia, alimentação, saúde, lazer e educação (o salário é uma droga, no mau sentido, mas não estou afim de discutir isso agora)... O que essas leis mortas, impraticadas, embora praticáveis, esqueceram, foi do fato de que tão importante quanto a remuneração pecuniária é a jornada de trabalho. Deveriam prever tempo suficiente para o lazer, saúde, educação, alimentação, além do tempo do trabalho.

 Eles te pagam, na verdade, pelo seu tempo. Macacos bem treinados ou com uma placa de hardware compatível com Linux instalada no cérebro podem muito bem te substituir no seu posto de trabalho, mas a classe dominante não quer. Apenas fazer as coisas que eles fazem, poder o que eles podem não é suficiente. A graça está na exclusividade. Como diz a música: eles querem que você se sinta mal, pois assim eles se sentem bem. Só é prazeroso na medida em que se tem um parâmetro inferior com o qual comparar, se todos tivessem uma ferrari teria graça?

É assim que a coisa funciona. Mas nem por isso eu vou largar tudo, deixar o cabelo crescer, fazer umas tranças, umas tatuagens de um líder revolucionário sul-americano de cuja história eu nada sei ou dos ursinhos carinhosos, é tudo a mesma porcaria...

Não vou sair correndo nu e ir morar na selva... Até isso eles planejaram, não passa de uma forma enganosa de mostrar que podemos não nos submeter aos moldes dessa sociedade. Mentira, é apenas mais um molde. Só vou pensar melhor antes de vender a coisa mais cara e rara desse mundo: o tempo...

Ah, recomendo que faça o mesmo.

E ah, agora tudo faz sentido...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Preto e Branco



Como sempre, me peguei pensando no mundo, pensando na vida... Pensando em coisas que gosto e detesto, pensando... Vi que tenho uma forte queda por imagens em preto e branco. Não faço a menor ideia de quando começou, nem o motivo (subjetividade é motivo?), a razão (agora ficou claro para mim que há uma razão que não necessariamente tem ligação com o racional). Preto e branco fica mais elegante, com ar de clássico, cara de atemporal, velho e moderno misturado, infindável.

Uma imagem em preto e branco é fria, talvez até um pouco arrogante. Exige que você ponha nela as cores, não te dá a cena toda de mão beijada, quer que você participe, a crie pelo menos em parte, algumas em todo. Que cor terá este mar? Verde ou azul? Que cor terá esta flor? Vermelha, amarela, branca...? Uma vantagem do preto e branco é que por não mostrar a cor do mar ou da flor, estes são livres para ter mais de uma, ter todas (embora podendo ter todas, efetivamente não tenha nenhuma).

Mas quem vai dizer que o mundo não é, hoje mais que nunca (ou pelo menos a partir de hoje), um preto e branco subjetivo e escalas de cinza pessoais, embasado nos ideais egoístas de cada um. Disseram-me que o pior cego é aquele que não quer ver, que só vê o que quer, que só enxerga a seu modo sem respeitar o de mais ninguém. Por isso amo o preto e branco, trás às cores algo que já fazemos com o mundo inteiro: ver ao nosso modo. Preto e branco agrada a todo mundo sem agradar a ninguém em especial.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Luzes...


Não me agrada viajar. Sair da minha casa, do meu conforto, do meu desconforto, do que é meu. A preocupação com o que levar e a preocupação para que nada por lá fique. Quando o destino é cidade maior que a minha, pior ainda, pois lá dependerei de alguém para me locomover e realizar minhas tarefas (cidade maior que a minha só vou quando a situação me obriga). E quando o destino é cidade menor (necessariamente na casa de amigos, já que minha família mora toda na minha cidade) também não ando desacompanhado, mas dessa vez, faço questão que seja mesmo assim.

Cada carro que passa me intriga. De onde vem? Para onde vai? Por que essa pressa? Muitas vezes é possível ter ideia do que se trata pelo carro e a cara do motorista (pelo menos eu penso que dá). Aquele carro vermelho com o som estrondando com quatro rapazes com cara de playboy... estão indo a uma festa. O senhor de idade trafegando lentamente no seu calhambeque... está indo a uma consulta médica. A moça com cara de aflita sozinha em seu carro... Ou é namorada de um dos rapazes, ou filha do senhor que vai se consultar, ou está apenas com receio de perder o último capítulo da novela.

Quando a noite chega, sua escuridão me tira os rostos que outrora podia ver. Os carros passam a serem apenas luzes: Vermelhos são os que vão no sentido em que vou; amarelos são os que vem no sentido oposto; Brancos são aqueles que tem dinheiro abastado pra xenon. E é assim que tudo é visto: luzes. Motos se tornam em luzes solitárias; Carros se tornam um par de luzes; cidades e povoados se tornam aglomerados de luzes e cada uma tem sua história, um porque de está acesa.

Chama-me atenção cada ponto de luz, até os mais isolados, inclusive estes, principalmente estes. O que será que iluminam? Uma partida de futebol entre crianças..? Uma brincadeira de roda..? Um jogo de dominó entre os compadres..? Quem sabe há apenas um cachorro com sua típica respiração acelerada, orelhas erguidas e cara de quem acabou de bocejar. Quem sabe nada há a sua volta.

Mas talvez haja uma moça, quieta de tão tímida, bela de tão simples. Morena de pele avermelhada; cabelos finos, lisos e escorridos; seus também tímidos e grandes olhos brincam de se esconder em suas pálpebras quando não estão fixos no chão, evitando cruzar com os meus. Seu nome é simples e forte, não o ouvi direito, ela sussurrou tão baixinho que tive que perguntar mais uma vez e ainda outra. Devia ser Maria, como tantas santas, como ela. Por ela eu deixaria toda essa correria, essas idas e vindas por uma vida parada, no espaço e no tempo. Não seria da magreza das modelos nem do corpo escultural das que frequentam musculação, seria como ela é, como só ela é, seria ela! Não vestiria roupas caras nem perfumes importados, seus vestidos brancos de renda são tudo que ela precisa para ser bela e seu cheiro de malva e alecrim é igual ao que os ventos trazem antes da chuva cair.

E todos os planos e projetos que fiz pra minha vida se desmanchariam como um castelo feito na areia, mas, quem se importa? O que mais importa se aqui eu sou feliz? E por nenhuma forma de talvez felicidade eu trocaria esta que é certa. O que mais encheria meu coração de alegria do que ver nossos três pequenos correndo descalços a brincar? Teríamos três filhos. Uma menina e dois meninos, para que eles revezassem na tarefa de pastorar a irmã na idade dos namoros. Se o primeiro “filho” for uma filha e a segunda também, por aí estaria fechada a fábrica! Um menino não daria conta de pastorar as duas, ainda mais sendo o caçula. Se fosse outra menina... Eu estaria perdido...

Certas frases que escuto nunca saem da minha cabeça. Quando eu tinha uns onze anos, ouvi um cara falar: “só faça com a filha dos outros aquilo que você vai querer que façam com suas filhas”. Isso nunca saiu da minha cabeça (e confesso que muito me influenciou). Uns menos conservadores parafraseariam: “faça o que quiser com a filha dos outros e reze pra não ter filhas”, “faça com a filha dos outros aquilo que sem dúvida vão fazer com suas filhas”. Por via das dúvidas é que quero meninos para pastorá-las. Elas saíram a cara da mãe (que bom!). Uma se chamaria Joana e a outra ainda não sei. Talvez também seja Maria... Mariana pra mim está ótimo. Elas me chamariam de papai, em meus braços se sentiriam seguras e com elas nos braços me sentiria um super-herói. E essa alegria tão simples faria com que tudo o que antes vivi se tornasse completamente inútil, fútil e insignificante.

Mas fui mesquinho... Não abandonei minha rota para que pudesse encontrar ou pelo menos procurar essas coisas perto daquela luz. E continuo no vai e vem da vida que, se me satisfizesse, não estaria aqui a imaginar outro mundo que não o meu, outro mundo que não necessariamente existe, não necessariamente inexiste... Necessário mesmo é viver.

sábado, 5 de novembro de 2011

Ciência ou Religião?


Não sei de onde tiraram a idéia de que ciência e religião são coisas antagônicas. Lembrei. Teve um “pesquisador” que realizou um levantamento no meio acadêmico norte americano e constatou que aproximadamente 65% dos acadêmicos não criam em Deus. Essa pesquisa foi, inclusive, refeita tempos depois por outro “pesquisador” e o resultado foi muito próximo desse valor. Com esse resultado ele esperava que a população concluísse que quem é “inteligente” não acredita nessa “baboseira” de Deus. Mas essa pesquisa não foi muito bem vista nem aceita no meio acadêmico (até por muitos ateus), pois a pergunta não apenas perguntava sobre a crença em Deus e sim na crença em um Deus acessível intelectualmente através de preces e que este Deus respondia-as. Ou seja, a pergunta era pouco generalista. Podia ser que aqueles que responderam não para essa pergunta acreditassem em Deus mas talvez não nos moldes que a pergunta o descrevia ou simplesmente não tinham uma definição para Deus.

Mas indo ao que gostaria de chegar, discordo dessa rivalização entre ciência e religião. Imagino a seguinte situação. Dois grupos de estudiosos sabem da localização de um artefato enterrado e começam a escavar para alcançá-lo. Eles prosseguem cada um a seu modo, com suas teorias e crenças e enfim chegam ao artefato, cada um por seu túnel, chegando um de um lado e o outro do outro. Para sua surpresa, os dois grupos descobrem que não é possível, em curto prazo, retirar esse objeto e expô-lo a luz do sol para descobrir sua cor. Daí eles decidem levar lanternas e iluminá-lo ainda longe da superfície e sem movê-lo. Um grupo conclui que ele é azul e o outro que ele é vermelho. Ou seja, existem duas teorias que tentam explicar a verdade:
Teoria 1: O objeto é azul e não vermelho.
Teoria 2: O objeto é vermelho, ou seja, não é azul.

Cada grupo passa a defender ferozmente sua ótica com argumentos convincentes e bem fundamentados, acha absurda a opinião dos “tolos” do outro grupo. A sociedade fica chocada e dividida. A tendência é que a parcela que dê ouvidos ao grupo que prega que o artefato é azul comece a pensar e também defender que o objeto seja azul, enquanto que a parcela que debate na roda dos pesquisadores que acreditam que o artefato é vermelho pouco a pouco é convencida de que ele de fato é vermelho.

Desde quando comecei a escrever esse texto já se passaram alguns dias e freqüentemente me pergunto se o objeto é azul ou vermelho. Azul ou vermelho? Vermelho? Azul? Por que sempre queremos que as coisas sejam de um jeito OU de outro? Azuis ou Vermelhas? Mas para a cor do artefato, apresentarei a seguir três possibilidades as quais nenhuma revela um objeto vermelho OU azul:

1. Vermelho e Azul e Verde
Anos de debates e discussões exaltadas chegam ao fim quando finalmente se pôde desenterrar completamente o artefato e descobrir que ele é tanto azul quanto vervelho, além de verde. O artefato era colorido, os túneis de cada equipe de pesquisadores haviam alcançado apenas pequenas partes de todo o artefato, uma parte azul de um lado e uma vermelha do outro, sendo presunçosos em inferir que o objeto era de uma ou outra cor.

2. Deu Branco.
Pesquisadores dos dois grupos aceitam analisar o artefato nas condições e local que o outro grupo observou, constatando que a observação de seus rivais também era correta. Ao analisar novamente cada um em seu próprio túnel mas com as ferramentas do outro grupo, tem a mesma conclusão que seus oponentes, concluindo que a iluminação diferente é que causou toda essa confusão de cores e o objeto era simplesmente branco, mas, na presença de certos tipos de iluminação poderia tornar-se azul ou vermelho, como eles já sabiam, mas não entendiam.

“Mas nem todas as coisas possuem sépalas e pétalas”, a vida me ensinou assim. Há uma terceira possibilidade que particularmente me parece ser a mais provável e promissora, tem mais cara de “sociedade humana”...

3. Os dois grupos não conseguem se entender de maneira alguma. O mundo está dividido entre azul e vermelho, não há meio termo. Ou um ou outro, ou um ou morto. As pessoas estariam dispostas a morrer e principalmente a matar pela verdade, por sua própria “verdade”, mesmo sem saber se esta era realmente verdade. Cientistas dos dois grupos começaram a aparecer mortos, pronto, foi suficiente pra que radicais armados tomassem as ruas, se matassem aos montes. Seu sangue nas calçadas era sempre vermelho, não azul. Violência, saques, governos de todo mundo declaram que precisam de ajuda, mas, só encontram apoio de governos das quais as lideranças são da mesma cor, azul ou vermelho. Acordos econômicos são desfeitos, faltam suprimentos, água. Mas sobra sangue, sempre vermelho, correndo nos esgotos, independente da cor que seu cadáver está pintado, seja azul ou vermelho. Guerras. Peregrinações ao artefato, validação de sua fé e mais extremismo ainda. Militantes morrem inexplicavelmente. Milhares, milhões perdem a vida. Quem matou os cientistas e tantas pessoas? A guerra continua.

Quem sabe o artefato é radioativo, tóxico, algo assim. Muita exposição e já era, morte em alguns dias. Faz sentido, o que tornaria toda essa guerra inútil. Mas as pessoas sempre querem culpar alguém, querem ter uma razão pra existir, precisam de uma razão para existir, não para lutar. Seria hilário se não sobrasse nenhum humano na face da terra pra terminar a pesquisa e jamais se chegasse à conclusão sobre a cor do objeto, seja ela qual for...


A ciência tenta modelar o universo com suas teorias. Nesses modelos, levar em conta uma intervenção divina realmente não faria sentido. Omitir Deus em modelagens científicas é bastante lógico e aceitável, mas nem por isso Deus “precisa” deixar de existir. Quando se diz que toda matéria que existe estava concentrada em algo do tamanho da cabeça de um alfinete e houve uma grande explosão e se expandiu, dando origem a tudo, sinceramente não consigo ver problema algum em essa teoria coexistir com “no princípio criou Deus os céus e a terra”, sendo o Big Bang uma modelagem científica da ação Divina. Por que tem que ser um OU outro? A Bíblia não fala que as coisas NÃO estavam concentradas assim como uma grande explosão não implica logicamente na não existência de um Deus que a coordenasse. Mas, ao que me parece, as pessoas não tem nenhum interesse em debater com bom senso para que se chegue a conclusões, querem apenas que o ponto de vista que defendem seja tido como verdadeiro.

sábado, 13 de agosto de 2011

Quem sou eu...


Quem você é? Quem você está?
Assim como há uma sutil diferença entre clima e tempo,
Há diferença entre ser e estar.

O clima, como bem sabe o Google é um padrão acerca de diversos acontecimentos e estados atmosféricos de um certo lugar ou mais precisamente, a descrição estatística de quantidades relevantes de mudanças do tempo meteorológico num período de tempo, que vai de meses a milhões de anos. Já o tempo é simplesmente como está num dado instante as condições atmosféricas de certo local. Vendo de maneira direta, o clima é o tempo mais provável para certa região enquanto o tempo é condição climática instantânea.

De maneira muito semelhante, “quem você é” é um padrão médio esperado dos comportamentos que tens assumido, depende de “como você tem estado” num dado período de observação.

Conceituando desse modo, é aceitável entender que é possível mudar algo que se deseje em si mesmo, apenas deixando de estar aquilo que se pretende mudar. Tenha cuidado, portanto, de como está, pois isso é exatamente o que compõe aquilo que você é...

Ou não...

domingo, 7 de agosto de 2011

Não toque no meu pinto!


Essa semana, vi algo que a muito não via, peguei em algo que a muito não pegava: um pinto. Bom, ao que tudo indica pinto não é o nome mais correto para designar a “infância” das galinhas (ou galos, engraçado que galinha é uma das poucas espécies cujo nome da fêmea caracteriza os dois sexos, quando se diz que se come galinha, pode-se muito bem estar se referindo a um galo, por exemplo) parece que o mais correto mesmo seria pintainho, mas, aqui usarei o termo “pinto” para designar as galinhas filhotes.

Lembro que antes dessa era digital, antes que houvesse locadoras nas quais era possível passar a tarde inteira jogando super Nintendo e ainda lanchar com incríveis 75 centavos (ta, peguei pesado), as crianças tinham que procurar formas alternativas de brincar e uma dessas formas, pelo menos que eu recorria, eram jogos com galinhas. É cara, você leu correto, brincar com galinhas. Pois é, enquanto uns viajam até a Florida para ver um show de golfinhos no Seeworld, eu brincava com galinhas no quintal da minha avó.

Minhas história com as galinhas começa por volta dos cinco anos de idade, não lembro bem e seria até estranho lembrar com exatidão. Minha mãe comprou dois pintos, um pra mim e outro para uma prima minha que cresceu junto comigo. Eu era bem cuidadoso, dava água gelada, ração, tratava os dois com muito amor, talvez pra compensar a falta de zelo que minha prima tinha. Eu os carregava pra todo lugar dentro de uma caixa de sapato toda furadinha para que não ficasse muito quente e circulasse ar. Os dois pintos eram idênticos, mas mesmo assim eu achava que o meu era um galo e minha prima achava que o dela era uma galinha.

Os dias passaram até que e um dos pintos acabou morrendo ao cair dentro de uma bacia com água. TRÁGICO! Bom, como eu cuidava bem do meu, entendi claramente que era o da minha prima que veio a óbito (além disso, tinha sido minha mãe que tinha comprado, não seria justo que o meu morresse). Lá fui eu dar a notícia a minha prima. Ela não chorou muito. Realizamos o enterro do pinto lá no quintal de vovó mesmo e depois fomos brincar (como se isso já não tivesse sido uma brincadeira).

Aí meu pinto foi crescendo, crescendo... E se tornou um galo. Acho que se ele se tornasse uma galinha eu teria morrido de desgosto. Nem quero imaginar o impacto que isso causaria na formação do meu caráter. Perguntar-me-ia incansavelmente onde haveria falhado na educação daquele pequeno pinto. Mas ele se tornou um grande galo e dos valentes, tanto é que fiz umas viagens e quando voltei, ele não me reconhecia, queria me bicar, queria destruir o universo. Tive que parar de cuidar dele, ele era violento demais. Tempos depois ele morreu misteriosamente (acho que tem alguma relação com o fato dele atacar meus primos menores diariamente), ninguém falou em enterro... Eu acho que fui enganado e alguma “galinha” que comi por aqueles dias era na verdade meu galo querido. Só lamento por nunca ter lhe dado um nome... Não sei qual seria... Mas seria legal.

Mas, saindo desse flashback, existem muitas formas de se divertir com galinhas. Eu passava a tarde inteira alimentado as galinhas com um saco de milho. Quando falo a tarde toda era realmente a tarde toda porque eu dava de grão em grão. Não porque de grão em grão a galinha enche o papo e sim porque era mais divertido, emocionante, “de grão em grão Davi enche o saco (das galinhas)”. Cada grão que eu jogava era uma correria, uma espécie de “jogar pro frevo” com aves. Puxa, meus olhos brilham ao lembrar, era muito divertido. Cada milho era estrategicamente jogado numa extremidade do galinheiro. A cada vez que eu jogava, as galinhas ficavam bem tensas, esperando o próximo. Era muito humilhante e degradante para elas... Acho que não compensava para elas em termos metabólicos, creio que elas gastavam mais energia correndo do que ganhavam comendo milho. Seria mais vantajoso para elas se apenas ficassem olhando com um ar de reprovação enquanto eu jogava o milho. Quando eu desistisse de brincar e derramasse o pacote todo, aí elas comeriam em paz.

Existia também outra brincadeira, naquela linha de fazer de conta que está se fazendo algo sério. Eu treinava as galinhas para elas aperfeiçoarem o vôo. Forçava-as a praticar exercícios. Acreditava que através de exercícios físicos as galinhas poderiam voar. Essa série especial de treinamento consistia basicamente em jogar as galinhas pra cima o mais alto que eu pudesse e ver no que dava (não acredito que confessei isso). Era legal. Pense bem, não era bom de bola, ainda não tocava violão, ainda não existia Playstation... Jogar galinhas pra cima me parece boa opção nesse contexto... Mas antes que alguém me taxe de malvado, elas não se machucavam, na maioria das vezes davam uma voadinha, nenhuma nunca se feriu, ninguém precisa pensar que eu odeio os animais ou coisa do tipo (não sou muito fã de gatos).

Mas isso é passado, as galinhas são apenas uma raça escravizada e explorada impiedosamente por nós humanos, os laços de amizade que asseguravam a harmonia já não existem mais, pois as crianças não brincam mais com as galinhas, sei que não era o único, mas não sei se não fui o último. Hoje quando vou ao shopping e vejo menininhas de 12 anos de salto alto, maquiadas, sendo cortejadas por menininhos da mesma faixa etária eu me pergunto: Quem perde ou perdeu tempo? Eu perdi tempo sendo criança, andando de bicicleta, indo jogar pedra nos macacos do antigo zoológico da ESAM (hoje UFERSA), tomando banho de chuva, brincando de corrida de tampinha, futebol de botão, jogando bila, brincando de mirim... Ou será que são essas crianças de hoje que estão perdendo a infância tentando ser adultos? Tentando parecer com seus ídolos idiotas. Penso que criança deve ser criança, enquanto pode, e adulto deve ser adulto, enquanto deve. Tudo tem seu tempo, seu lugar. Acho que muitas coisas não são como deveriam, pois tentaram melhorar quando já eram inocentemente perfeitas...